SÁBADO SANTO (TRÍDUO SANTO)








Com a reposição da Vigília Pascal a seu tempo e lugar próprio e primitivo (noite do sábado para o domingo), o Sábado Santo passou a ser, com a nova reforma, como era antigamente, dia de luto para Igreja; dia em que esta se recolhe amorosamente junto do sepulcro do seu Divino Esposo, na meditação silenciosa da sua Paixão e Morte; dia alitúrgico", privado da celebração do Sacrifício Eucarístico e distribuição de comunhão.
O desnudamento e silêncio da Igreja (silêncio apenas interrompido pelo ofício das horas canônicas) traduz um sentimento de "ausência", sentimento este, no entanto, acompanhado de uma devota e "religiosa expectação" da vitória final daquele que, com sua morte, saiu vencedor da mesma morte.


A descida de Jesus aos infernos.
  
         Quando Jesus, com um grito forte, rendeu a santíssima alma, vi-a, qual figura luminosa, acompanhada de muitos Anjos, entre os quais também Gabriel, descer pela terra a dentro, ao pé da cruz. Vi, porém, que a divindade lhe ficou unida tanto à alma, como também ao corpo, pregado à cruz. Não sei explicar o modo porque se passou. Vi o lugar aonde se dirigiu a alma de Jesus; era dividido em três partes, parecendo três mundos e eu tinha a sensação de que tinha a forma redonda e que cada um estava separado do outro por uma esfera.

         Antes de chegar ao limbo, havia um lugar claro, e por assim dizer, mais verdejante e alegre. Era o lugar em que vejo sempre entrarem as almas remidas do purgatório, antes de serem levadas ao céu. O limbo, onde se achavam os que esperavam a redenção, estava cercado de uma esfera cinzenta, nebulosa e dividido em vários círculos. Nosso Salvador, conduzido pelos Anjos como em triunfo, entrou por entre dois desses círculos, dos quais o esquerdo encerrava os Patriarcas até Abraão e o direito as almas de Abraão até João Batista.Jesus penetrou por entre os dois; eles, porém, ainda não o conheciam, mas estavam todos cheios de alegria e desejo; foi como se dilatassem esses páramos da saudade angustiosa, como se ali entrassem o ar, a luz e o orvalho da Redenção.

         Tudo se deu rapidamente, como o sopro do vento. Jesus penetrou através dos dois círculos, até um lugar cercado de neblina, onde se achavam Adão e Eva, nossos primeiros pais. Falou-lhes e adoraram-no com indizível felicidade. O cortejo do senhor, ao qual se juntou o primeiro casal humano, dirigiu-se então à esquerda, ao limbo dos Patriarcas que tinham vivido antes de Abraão. Era uma espécie de purgatório; pois entre eles se moviam, cá e lá, maus espíritos, que atormentavam e inquietavam algumas dessas almas de muitas maneiras.

         Os anjos bateram e mandaram que abrissem; pois havia lá uma entrada, uma espécie de porta, que estava fechada; os anjos anunciaram a vinda do Senhor, parecia-me ouvi-los exclamar: “Abri as portas!” Jesus entrou triunfantemente; os espíritos maus, retirando-se, gritaram: “Que tens conosco? Que queres fazer de nós? Queres crucificar-nos também?, etc”. 

         – Os anjos, porém, amarraram-nos e empurraram-nos para diante. Essas almas sabiam pouco de Jesus, tinham só uma idéia obscura do Salvador; Jesus anunciou-lhes a Redenção e eles lhe cantaram louvores. Dirigiu-se então a alma do Senhor ao espaço a direita, ao verdadeiro limbo, em frente ao qual se encontrou com a alma do bom ladrão que, cercado de espíritos maus, foi precipitada no inferno. A alma de Jesus dirigiu-lhes algumas palavras e entrou então no seio de Abraão, acompanhada dos Anjos, das almas remidas e dos demônios expulsos.

         Esse lugar parecia-me situado um pouco mais alto; era como se subisse do subterrâneo de uma igreja à igreja superior. Os demônios amarrados quiseram resistir, não queriam passar; mas foram levados a força pelos Anjos. Neste lugar estavam todos os santos Israelitas, a esquerda dos Patriarcas, Moisés, os Juizes, os Reis; a direita os profetas e todos os antepassados e parentes de Jesus, até Joaquim, Ana, José, Zacarias, Isabel e João.

         Nesse lugar não havia nenhum mau espírito, nem tormento algum, a não ser o desejo ansioso da Redenção, que se realizaria enfim. Indizível delicia e felicidade enchia as almas todas, que saudavam e adoravam o Salvador; os demônios amarrados foram obrigados a confessar sua ignomínia diante delas. Muitas dessas almas foram enviadas à terra, para entrar nos respectivos corpos e dar testemunho do Senhor. Foi nesse momento que tantos mortos saíram dos sepulcros em Jerusalém; apareciam como cadáveres ambulantes, depositando depois novamente os corpos, como um mensageiro da justiça deposita o manto oficial, depois de ter cumprido as ordens do superior.

         Vi depois o cortejo triunfal do Salvador entrar numa esfera mais baixa, uma espécie de lugar de purificação, onde se achavam piedosos pagãos e tinham tido um pressentimento da verdade  e o desejo de conhecê-la. Havia entre eles espíritos maus, porque tinham ídolos; vi os espíritos malignos forçados a confessar o embuste e as almas adorarem o Senhor com alegria tocante. Os demônios desse lugar foram também amarrados e levados no cortejo. Assim vi o Salvador passar triunfalmente com grande velocidade, por vários lugares onde estavam almas encerradas, libertando-as e fazendo ainda muitas outras coisas, mas no meu estado de miséria não posso contar tudo.

         Por fim o vi aproximar-se, com ar severo, do centro do abismo, do inferno, que me apareceu sob a forma de um imenso edifício horrível, formado de negros rochedos, de brilho metálico, cuja entrada tinha enormes portas, terríveis, pretas, fechadas com fechaduras e ferrolhos que causavam medo. Ouviam-se uivos de desespero e gritos de tormento, abriram-se as portas e apareceu um mundo hediondo e tenebroso.

         Assim como vi as moradas dos bem-aventurados sob a forma de uma cidade, a Jerusalém celeste, com muitos palácios e jardins, cheios de frutas e flores maravilhosas, de várias espécies, conforme as inúmeras condições e graus de santidade, assim vi também o inferno como um mundo separado, com muitos edifícios, moradas e campos. Mas tudo destinado, ao contrário, a tortura e as penas dos condenados. Como na morada dos bem aventurados tudo é disposto segundo as causas e condições da eterna paz, harmonia e alegria, assim no inferno se manifesta em tudo a eterna ira, a discórdia e desespero.

         Como no céu há muitíssimos edifícios, indizivelmente belos, transparentes, destinados a alegria e adoração, assim há no inferno inúmeros e variados cárceres e cavernas, cheios de tortura, maldição e desespero. No céu há maravilhosos jardins, cheios de frutos de gozo divino; no inferno horrendos desertos e pântanos, cheios de tormentos e angustias e de tudo que pode causar horror, medo e nojo.

         Vi tempos, altares, castelos, tronos, jardins, lagos, rios de maldição, de ódio, de horror, de desespero, de confusão, de pena e tortura; com há no céu rios de benção, de amor de concórdia, de alegria e felicidade; aqui a eterna, terrível discórdia dos condenados; lá a união bem-aventurada dos santos.

         Todas as raízes da corrupção e do erro produzem aqui tortura e suplicio, em inumeráveis manifestações e operações; há só um pensamento reto: a idéia austera da justiça divina, segundo a qual cada condenado sofre a pena, o suplicio, que é o fruto necessário de seu crime; pois tudo que se passa e se vê de horrível nesse lugar, é a essência, a forma e a perversidade do pecado desmascarado, da serpente que atormenta com o veneno maldoso os que o alimentaram no seio. Vi lá uma colunata horrorosa, em que tudo se referia ao horror e a angústia, como no reino de Deus a paz e ao repouso. Tudo se compreende facilmente, ao vê-lo, mas é quase impossível exprimir tudo em palavras.

         Quando os anjos abriram as portas, viu-se um caos de contradição, de maldições, de injurias, de uivos e gritos de dor. Vi Jesus falar a alma de Judas. Alguns dos anjos prostraram exércitos inteiros de demônios. Todos foram obrigados a reconhecer e adorara Jesus, o que foi para eles o maior suplício. Grande número deles foram amarrados a um círculo, que cercava muitos outros, que deste modo também ficaram presos.

         No centro havia um abismo de trevas, Lúcifer foi amarrado e lançado nesse abismo, onde vapores negros lhe ferviam em redor. Tudo se fez segundo os decretos divinos. Ouvi dizer que Lúcifer, se não me engano, 50 ou 60 anos antes do ano 2.000 de Cristo, seria novamente solto por certo tempo. Muitas outras datas e números foram indicados, dos quais não me lembro mais. Deviam ser soltos ainda outros demônios antes desse tempo, para provação e castigo dos homens. Creio que também em nosso tempo era a vez de alguns deles e de outros pouco depois do nosso tempo.

         É-me impossível contar tudo quanto me foi mostrado; são muitas coisas e não as posso relatar em boa ordem; também me sinto tão doente e quando falo dessas coisas, elas se me representam novamente diante dos olhos e só o aspecto já é suficiente para nos fazer morrer.

         Ainda vi exércitos imensos de almas remidas saírem do purgatório e do limbo, acompanhando o Senhor, para um lugar de delicias abaixo da Jerusalém celeste. Foi lá que vi também, há algum tempo, um amigo falecido. A alma do bom ladrão foi também conduzida para lá e viu assim o Senhor no Paraíso, conforme a promessa. Vi que nesse lugar foram preparados banquetes de alegria e conforto, como os tenho visto já muitas vezes, em visões consoladoras.

         Não posso indicar com exatidão o tempo de tudo que se passou, como também não posso contar tudo quanto vi e ouvi lá porque eu mesma não compreendo mais tudo, já porque podia ser mal compreendida pelos ouvintes. Vi, porém, o Senhor em lugares muito diferentes, até no mar, parecia santificar e libertar todas as criaturas; em toda parte fugiam os maus espíritos diante dele e lançaram-se no abismo. Vi também a alma do Senhor em muitos lugares da terra.

         Vi-O aparecer no sepulcro de Adão e Eva, sob o Gólgota. As almas de Adão e Eva juntaram-se-lhe novamente; falou-lhes e com elas O vi passar, como sob a terra, em muitas direções e visitar os túmulos de muitos profetas, cujas lamas se lhe juntaram, próximo das respectivas ossadas e explicou-lhes o Senhor muitas coisas. Vi-O depois, com esse séqüito escolhido, em que seguia também Davi, passar em muitos lugares de sua vida e paixão, explicando-lhes com indizível amor todos os fatos simbólicos que se tinham dado ali e o cumprimento dessas figuras em sua pessoa.

         vi-O especialmente explicar as almas tudo quanto se dera de fatos figurativos no lugar me que foi batizado e contemplei muito comovido a infinita misericórdia de Jesus, que as fez participar da graça de seu santo Batismo.

         Causou-me inexprimível comoção ver a alma do Senhor, acompanhada por esses espíritos bem aventurados e consolados, passar, como um raio de luz, através da terra escura e dos rochedos, pelas águas e pelo ar e pairar tão sereno sobre a terra.

         É o pouco de que me lembro ainda, de minha contemplação da descida do Senhor aos infernos e da redenção das almas dos Patriarcas, depois de sua morte; mas além dessa visão dos tempos passados, vi nesse dia uma imagem eterna de sua misericórdia para com as pobres almas do purgatório. Vi que, a em cada aniversário desse dia, lança por meio da Igreja, um olhar de salvação ao purgatório; vi que já no Sábado Santo remiu algumas almas do purgatório, que tinham pecado contra ele na hora da crucificação.

         A primeira descida de Jesus ao limbo é o cumprimento de figuras anteriores e, por sua vez, é a figura da redenção atual. A descida aos infernos que vi, referia-se ao tempo passado, mas a salvação de hoje é uma verdade permanente; pois a descida de Jesus aos infernos é o plantio de uma árvore de graça, destinada a administrar os seus méritos divinos as almas do purgatório e a redenção contínua e atual dessas almas é o fruto dessa árvore da graça no jardim espiritual do ano eclesiástico.

         A Igreja militante deve cuidar dessa árvore, colher-lhe frutos, para os outorgar a Igreja padecente, porque essa nada pode fazer em seu próprio proveito. Eis o que se dá em todos os merecimentos de Nosso Senhor; é preciso cooperar, para ter neles. Devemos comer o pão ganho com os suor do nosso rosto. Tudo quanto Jesus fez por nós no tempo, dá frutos eternos; mas devemos cultivá-los e colhê-los no tempo, para poder gozá-los na eternidade.

         A Igreja é como um bom pai de família; o ano eclesiástico é o jardim mais perfeito, com todos os frutos eternos no tempo; em um ano tem bastante de tudo para todos. Ai! Dos jardineiros preguiçosos e infiéis, que deixam perder uma graça, que poderia curar um enfermo, fortalecer um fraco, saciar um faminto: no dia de juízo terão de dar conta até do menor pezinho de erva.

Fonte: Cidadão do Infinito



Façamos a observância do santo silêncio meditando a Paixão e Morte de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Rezemos hoje especialmente pelos milhares de Cristãos que sofrem perseguição por causa de sua Fé no mundo todo, vítimas do ódio e da Cristofobia.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960

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