quarta-feira, 29 de março de 2017

Quarta-feira da 4ª Semana da Quaresma

A estação de hoje juntava-se na grande Basílica de São Paulo. Depois do Canto do Intróito , que anuncia o Batismo em que Deus se digna derramar na almas a água purificadora da graça, os catecúmenos, eram exorcizados e recebiam a imposição das mãos, depois da leitura de Ezequiel e Isaías, que falam desta purificação renovadora, lia se o princípio dos quatro Evangelhos e explicava-se o Credo e o Pai-Nosso são com efeito os elementos essenciais da revelação cristã.
O Evangelho da missa refere-se a cura do cedo de nascimento e o acolhimento que o Senhor lhe deu depois que o expulsaram da Sinagoga: é mais um dos símbolos do Batismo, que derrama nas almas a luz sobrenatural da fé. Demos graças a Deus por nos ter concedido também essa luz e orgulhemo-nos de ser cristãos.


Epístola

Leitura do profeta Ezequiel (36, 23-28): Isto diz o Senhor Deus: Quero manifestar a santidade do meu augusto nome que aviltastes, profanando-o entre as nações pagãs, a fim de que conheçam que eu sou o Senhor - oráculo do Senhor Javé -, quando sob seus olhares eu houver manifestado a minha santidade por meu proceder em relação a vós. Eu vos retirarei do meio das nações, eu vos reunirei de todos os lugares, e vos conduzirei ao vosso solo. Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Dentro de vós meterei meu espírito, fazendo com que obedeçais às minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos. Habitareis a terra de que fiz presente a vossos pais; sereis meu povo, e serei vosso Deus. Purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies. Farei vir o trigo, farei com que seja produzido em abundância e isentar-vos-ei da fome. Farei abundar os frutos das árvores e a colheita dos campos, a fim de que não tenhais mais de sofrer entre as nações a vergonha da fome. Então, lembrando-vos de vosso perverso proceder e de vossas ignóbeis ações, vos desgostareis de vós mesmos, por causa das vossas iniqüidades e de vossas abominações. Não é por vós que faço isso - oráculo do Senhor Javé -, sabei-o bem. Tende vergonha, enrubescei-vos por causa de vosso comportamento, ó israelitas! Eis o que diz o Senhor Javé: no dia em que eu vos purificar de todas as vossas iniqüidades, repovoarei as cidades; as ruínas serão reerguidas, e a terra inculta de novo cultivada, ao invés desse espetáculo de desolação oferecido aos olhares de todos os passantes. Dir-se-á: esta terra que se achava devastada tornou-se um jardim do Éden! Essas cidades em ruínas, desertas e desoladas, estão agora restauradas e repovoadas. Então as nações que restaram em torno de vós saberão que sou eu o Senhor, que reconstruí o que estava em ruínas e replantei o que estava baldio. Sou eu, o Senhor, que o digo e o farei. Eis o que diz o Senhor Javé: nisto ainda me deixarei abrandar pela casa de Israel e o farei por eles: eu os multiplicarei como um rebanho. Tais como os rebanhos dos animais consagrados, tais como as manadas que se conduzem a Jerusalém, por ocasião das festas solenes, tais serão os rebanhos de homens que povoarão vossas cidades em ruínas. Então se saberá que sou eu o Senhor.


Epístola

Leitura do profeta Isaías (1, 16-19): Naqueles dias: Isto diz o Senhor Deus: lavai-vos, purificai-vos. Tirai vossas más ações de diante de meus olhos. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido; fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. Pois bem, justifiquemo-nos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como
a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! Se fordes dóceis e obedientes, provareis os melhores frutos da terra;


Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (9, 1-38) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. Enquanto for dia, cumpre-me terminar as obras daquele que me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar. Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Dito isso, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois lhe disse: Vai, lava-te na piscina de Siloé (esta palavra significa emissário). O cego foi, lavou-se e voltou vendo. Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto mendigar perguntavam: Não é este aquele que, sentado, mendigava? Respondiam alguns: É ele. Outros contestavam: De nenhum modo, é um parecido com ele. Ele, porém, dizia: Sou eu mesmo.  Perguntaram-lhe, então: Como te foram abertos os olhos? Respondeu ele: Aquele homem que se chama Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo. Interrogaram-no: Onde está esse homem? Respondeu: Não o sei. Levaram então o que fora cego aos fariseus. Ora, era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. Os fariseus indagaram dele novamente de que modo ficara vendo. Respondeu-lhes: Pôs-me lodo nos olhos, lavei-me e vejo. Diziam alguns dos fariseus: Este homem não é o enviado de Deus, pois não guarda sábado. Outros replicavam: Como pode um pecador fazer tais prodígios? E havia desacordo entre eles. Perguntaram ainda ao cego: Que dizes tu daquele que te abriu os olhos? É um profeta, respondeu ele. Mas os judeus não quiseram admitir que aquele homem tivesse sido cego e que tivesse recobrado a vista, até que chamaram seus pais. E os interrogaram: É este o vosso filho? Afirmais que ele nasceu cego? Pois como é que agora vê? Seus pais responderam: Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego. Mas não sabemos como agora ficou vendo, nem quem lhe abriu os olhos. Perguntai-o a ele. Tem idade. Que ele mesmo explique. Seus pais disseram isso porque temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo. Por isso é que seus pais responderam: Ele tem idade, perguntai-lho. Tornaram a chamar o homem que fora cego, dizendo-lhe: Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador. Disse-lhes ele: Se esse homem é pecador, não o sei... Sei apenas isto: sendo eu antes cego, agora vejo. Perguntaram-lhe ainda uma vez: Que foi que ele te fez? Como te abriu os olhos? Respondeu-lhes: Eu já vo-lo disse e não me destes ouvidos. Por que quereis tornar a ouvir? Quereis vós, porventura, tornar-vos também seus discípulos?... Então eles o cobriram de injúrias e lhe disseram: Tu que és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés, mas deste não sabemos de onde ele é. Respondeu aquele homem: O que é de admirar em tudo isso é que não saibais de onde ele é, e entretanto ele me abriu os olhos. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se esse homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada. Responderam-lhe eles: Tu nasceste todo em pecado e nos ensinas?... E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, havendo-o encontrado, perguntou-lhe: Crês no Filho do Homem? Respondeu ele: Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele? Disse-lhe Jesus: Tu o vês, é o mesmo que fala contigo! Creio, Senhor, disse ele. E, prostrando-se, o adorou.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

terça-feira, 28 de março de 2017

Terça-Feira da 4ª Semana da Quaresma

A estação de hoje reunia-se na Igreja edificada no século IV por São Dámaso em honra de São Lourenço. Já vimos que esta semana é consagrada a Moisés e é por este motivo que a Epístola e o Evangelho se refere ao Santo Legislador. Deus, que vira com indignação o seu povo prostrado diante do ídolo do bezerro de ouro, anuncia a Moisés que irá destruir aquele povo ingrato. Moisés ora então ao Senhor e consegue-lhe aplacar-lhe a cólera. Desce da montanha e castiga os infiéis e reduz os israelitas a penitência. Esta missão de pacificador é, como claramente se vê, figura da missão de Jesus Cristo, que nos havia de reconciliar com o Pai, se quiserssemos ouvir a sua palavra e fazer penitência, que é precisamente a finalidade da Quaresma. O Evangelho introduziu-nos no templo onde os judeus procuram armar mais uma cilada ao Salvador. E Jesus confunde-os sem conseguir no entanto vergar-lhes o coração, a essa gente perversa que se gloriava de ter a Moisés por legislador e não observava a sua Lei. Rejeitado por Jerusalém, Cristo fundara um novo povo, a Igreja que encherá o Universo, e que terá a alegria de ver crescer sempre seus filhos. Querem muitos ver na oração que Moisés fez por ocasião do lapso do povo um alusão ao cisma que perturbou a cidade de Roma por ocasião da eleição de São Dámaso.

Epístola

Leitura do Livro de Êxodo (32,7-14) : Naqueles dias: O Senhor disse a Moisés: “Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste do Egito. Desviaram-se depressa do caminho que lhes prescrevi; fizeram para si um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: eis, ó Israel, o teu Deus que te tirou do Egito. Vejo, continuou o Senhor, que esse povo tem a cabeça dura. Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada; mas de ti farei uma grandenação.” Moisés tentou aplacar o Senhor seu Deus, dizendo-lhe: “Por que, Senhor, se inflama a vossa ira contra o vosso povo que tirastes do Egito com o vosso poder e à força de vossa mão? Não é bom que digam os egípcios: com um mau desígnio os levou, para matá-los nas montanhas e suprimi-los da face da terra! Aplaque-se vosso furor, e abandonai vossa decisão de fazer mal ao vosso povo. Lembrai-vos de Abraão, de Isaac e de Israel, vossos servos, aos quais jurastes por vós mesmo de tornar sua posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e de dar aos seus descendentes essa terra de que falastes, como uma herança eterna.” E o Senhor se arrependeu das ameaças que tinha proferido contra o seu povo.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (7, 14-31) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Lá pelo meio da festa, Jesus subiu ao templo e pôs-se a ensinar. Os judeus se admiravam e diziam: Este homem não fez estudos. Donde lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras? Respondeu-lhes Jesus: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se a minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo. Quem fala por própria autoridade busca a própria glória, mas quem procura a glória de quem o enviou é digno de fé e nele não há impostura alguma. Acaso não foi Moisés quem vos deu a lei? No entanto, ninguém de vós cumpre a lei!... Por que procurais tirar-me a vida? Respondeu o povo: Tens um demônio! Quem procura tirar-te a vida? Replicou Jesus: Fiz uma só obra, e todos vós vos maravilhais! Moisés vos deu a circuncisão (se bem que ela não é de Moisés, mas dos patriarcas), e até no sábado circuncidais um homem! Se um homem recebe a circuncisão em dia de sábado, e isso sem violar a Lei de Moisés, por que vos indignais comigo, que tenho curado um homem em todo o seu corpo em dia de sábado? Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça. Algumas das pessoas de Jerusalém diziam: Não é este aquele a quem procuram tirar a vida? Todavia, ei-lo que fala em público e não lhe dizem coisa alguma. Porventura reconheceram de fato as autoridades que ele é o Cristo? Mas este nós sabemos de onde vem. Do Cristo, porém, quando vier, ninguém saberá de onde seja. Enquanto ensinava no templo, Jesus exclamou: Ah! Vós me conheceis e sabeis de onde eu sou!... Entretanto, não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou, e vós não o conheceis. Eu o conheço, porque venho dele e ele me enviou. Procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora. Muitos do povo, porém, creram nele e perguntavam: Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que este faz?

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Segunda-feira da 4ª Semana da Quaresma

A Epístola de hoje refere o célebre julgamento de Salomão. Uma das mulheres que requeriam justiça abafara o filho durante o sono e invejava o da rival, que vivia. Esta mulher é a figura da Sinagoga, cujos príncipes sufocaram pela sua indiferença a vida religiosa em Israel e invejvam a fortuna dos gentios aos quais a Igreja confere  a vida nova por meio do Batismo e da Penitência. O Evangelho foi escolhido  por aludir  ao templo de Salomão. Mas uma vez a Igreja se empenha em mostrar, como de resto o fez durante toda a Quaresma, que a história do Antigo Testamento  não é mais que a preexistência figurada de tudo o que a Igreja e de Jesus Cristo iam de realizar mais tarde.

Epístola

Leitura do Livro de I Reis (3, 16-28)  : Naqueles dias: Vieram duas prostitutas apresentar-se ao rei. Uma delas disse: Ouve, meu senhor: Esta mulher e eu habitamos na mesma casa, e eu dei à luz junto dela no mesmo aposento. Três dias depois, deu também ela à luz. Ora, nós vivemos juntas, e não havia nenhum estranho conosco nessa casa, pois somente nós duas estávamos ali. Durante a noite morreu o filho dessa mulher, porque o abafou enquanto dormia. Levantou-se ela então, no meio da noite, e enquanto a tua serva dormia, tomou o meu filho que estava junto de mim e o deitou em seu seio, deixando no meu o seu filho morto. Quando me levantei pela manhã para amamentar o meu filho, encontrei-o morto; mas, examinando-o atentamente à luz, verifiquei que não era o filho que eu dera à luz. É mentira!, replicou a outra mulher, o que está vivo é meu filho; o teu é que morreu. A primeira contestou: Não é assim; o teu filho é o que morreu, o que está vivo é o meu. E assim disputavam diante do rei. O rei disse então: Tu dizes: é o meu filho que está vivo, e o teu é o que morreu; e tu replicas: não é assim; é o teu filho que morreu, e o meu é o que está vivo. Vejamos, continuou o rei; trazei-me uma espada. Trouxeram ao rei uma espada. Cortai pelo meio o menino vivo, disse ele, e dai metade a uma e metade à outra. Mas a mulher, mãe do filho vivo, sentiu suas entranhas enternecerem-se e disse ao rei: Rogo-te, meu senhor, que dês a ela o menino vivo; não o mateis; a outra, porém, dizia: Ele não será nem teu, nem meu; seja dividido! Então o rei pronunciou o seu julgamento: Dai, disse ele, o menino vivo a essa mulher; não o mateis, pois é ela a sua mãe. Todo o Israel, ouvindo o julgamento pronunciado pelo rei, encheu-se de respeito por ele, pois via-se que o inspirava a sabedoria divina para fazer justiça.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (2, 13-25) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes. Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10). Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo? Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias. Os judeus replicaram: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?! Mas ele falava do templo do seu corpo. Depois que ressurgiu dos mortos, os seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na palavra de Jesus Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sábado, 25 de março de 2017

IV Domingo da Quaresma: A multiplicação dos pães e dos peixes é uma figura da Páscoa (Laetare)






Elias, O Profeta

Nesta Semana lê-se no Breviário a história de Moisés. Duas idéias principais a dominam toda. Por um lado Moisés retira o povo de Deus do cativeiro e fá-lo atravessar o Mar Vermelho; por outro lado dá-lhe de comer maná do deserto, dá-lhe a lei no Sinai e o conduz a terra prometida onde se erguerá um dia Jerusalém, a cidade santa que regozijará com as tribos vindas de todo Israel para cantar os louvores de Javé. A missa de hoje dá-nos a realização dessas figuras. O verdadeiro Moisés, com efeito, é Jesus Cristo, que nos resgatou do cativeiro da lei e do pecado, nos fez passar pelas águas do batismo, nos alimenta no deserto da existência terrena com o verdadeiro maná, a sua carne, e nos introduziu na terra prometida que é a Santa Igreja.

A estação de hoje congregava-se na Igreja de Santa Cruz de Jerusalém, velho palácio romano que Santa Helena transformou em santuário para nele guardar as relíquias da Cruz descobertas no Calvário e representar no coração da capital do Cristianismo a cidade de Jerusalém e os lugares santos.

E de fato a escolha desta basílica impunha para cantar as alegrias e as grandezas da nova Jerusalém, que é simultaneamente a Igreja na terra e a cidade dos céus, cujas portas o Senhor nos veio com sua morte abrir. Neste Domingo (Laetare) a Igreja congrega aí os fiéis para os fazer experimentar um raio da grande alegria que se aproxima. Era com este sentimento de júbilo que a Igreja benzia outrora a rosa "laetare" e é com ele que ainda hoje reveste de paramentos de cor rosa os ministro do altar. "Regozijai-vos e exultai de alegria" diz o intróito, porque mortos com Jesus Cristo para o pecado havemos de ressuscitar com ele. O Evangelho relata-nos o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, símbolos da Eucaristia e do Batismo que são por excelência os sacramentos da ressurreição. E na Epístola São Paulo procura fazer-nos compreender a liberdade dos filhos da Igreja, que é a liberdade de Cristo.

Que a missa deste domingo, já tão impregnada das alegrias pascais, nos dê coragem para prosseguirmos com generosidade a segunda parte da Quaresma.



Epístola

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas (4, 22-31) Irmãos: A Escritura diz que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. O da escrava, filho da natureza; e o da livre, filho da promessa. Nestes fatos há uma alegoria, visto que aquelas mulheres representam as duas alianças: uma, a do monte Sinai, que gera para a escravidão, é Agar. (O monte Sinai está na Arábia.) Corresponde à Jerusalém atual, que é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém lá do alto é livre e esta é a nossa mãe, porque está escrito: Alegra-te, ó estéril, que não davas à luz; rejubila e canta, tu que não tinhas dores de parto, pois são mais numerosos os filhos da abandonada do que daquela que tem marido (Is 54,1). Como Isaac, irmãos, vós sois filhos da promessa. Como naquele tempo o filho da natureza perseguia o filho da promessa, o mesmo se dá hoje. Que diz, porém, a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre (Gn 21,10). Pelo que, irmãos, não somos filhos da escrava, mas sim da que é livre.


Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (6, 1-15): Naquele tempo: Jesus atravessou o lago da Galiléia (que é o de Tiberíades.) Seguia-o uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos. Jesus subiu a um monte e ali se sentou com seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com ele e disse a Filipe: Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer? Falava assim para o experimentar, pois bem sabia o que havia de fazer. Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pedaço. Um dos seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe: Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente? Disse Jesus: Fazei-os assentar. Ora, havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se aqueles homens em número de uns cinco mil. Jesus tomou os pães e rendeu graças. Em seguida, distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes lhes deu quanto queriam. Estando eles saciados, disse aos discípulos: Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca. Eles os recolheram e, dos pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram, encheram doze cestos. À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo. Jesus, percebendo que queriam arrebatá-lo e fazê-lo rei, tornou a retirar-se sozinho para o monte.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

SOLENIDADE DA ANUNCIAÇÃO DA SANTÍSSIMA VIRGEM









As grandes festas sucedem-se nestes fins de Março. A de hoje recorda-nos o maior de todos os acontecimentos da história, a Encarnação de Verbo no seio virginal de Maria Santíssima. Foi hoje (25 de Março) no seio da Virgem Maria que o Verbo de Deus se fez carne e uniu-se para sempre a humanidade de Jesus. O mistério da Encarnação mereceu Maria Santíssima o maior título de glória, o título de "Mãe de Deus", em grego "Theotocos", palavra que a Igreja do oriente escrevia sempre em letras de ouro, como diadema na fronte das imagens e das estátuas da Virgem. "Colocada assim nos confins da divindade" por haver dado ao Verbo a carne a que ele hipostáticamente se uniu, foi sempre honrada com culto supereminente ou de hiperdulia, porque, diz Santo Anselmo, o Filho do Pai e Filho da Virgem são um e o mesmo Filho. Maria é desde a Rainha do gênero humano, e como tal deve ser venerada. Ao dia 25 de Março corresponderá outro dia 25 que se dará nove meses mais tarde (Natal), em que se há-de revelar ao mundo o prodígio hoje apenas conhecido de Deus e da humilde Virgem. Que esta data nos recorde, no sagrado tempo em que estamos, "que foi por nós, homens, e pela nossa redenção que o Filho de Deus desceu dos Céus e encarnou por virtude do Espírito Santo no Seio da Virgem Maria, que ele se fez homem e sofreu sob o poder de Pôncio Pilatos, que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia". E porque o Título de Mãe de Deus confere a Maria todos os poderes diante do seu Filho, recorramos a sua intercessão para obtermos a graça de, pelos merecimentos da Paixão e Cruz de Jesus, chegarmos a glória da Ressurreição.

Epístola

Leitura do profeta Isaías (7,10-15) Naqueles dias: O Senhor disse ainda a Acaz: Pede ao Senhor teu Deus um sinal, seja do fundo da habitação dos mortos, seja lá do alto. Acaz respondeu: De maneira alguma! Não quero pôr o Senhor à prova. Isaías respondeu: Ouvi, casa de Davi: Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis cansar também o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco. Ele será nutrido com manteiga e mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem.





Evangelho da Festa:


Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo São Lucas: Naquele tempo: No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem?
Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.
Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.
Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela.


Oração do Angelus:
- Angelus Domini nuntiavit Mariae.
- Et concepit de Spiritu Sancto.
Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum; benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Jesus.
Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae.
Amen.

- Ecce ancilla Domini.
- Fiat mihi secundum verbum tuum.
- Ave Maria...

- Et verbum caro factum est.
- Et habitavit in nobis.

- Ave Maria...
- Ora pro nobis, sancta Dei Genitrix.
- Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

OremusGratiam tuam, quaesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui, angelo nuntiante, Christi Filii tui Incarnationem cognovimus, per Passionem eius et Crucem ad resurrectionis gloriam perducamur.
Per eundem Christum Dominum nostrum.
Amen.

TEMPO PASCAL


V.: Regina caeli, laetare! Alleluia!
R.: Quia quem meruisti portare! Alleluia!
V.: Resurrexit, sicut dixit! Alleluia!
R.: Ora pro nobis Deum! Alleluia!
Em algumas formas, acrescenta-se:
V.: Gaude et laetare, Virgo Maria! Alleluia!
R.: Quia surrexit Dominus vere! Alleluia!
Conclui-se com a seguinte oração:
V.: Oremus:
Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu Christi,
mundum laetificare dignatus es:
praesta, quaesumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam,
perpetuae capiamus gaudia vitae.
Per eundem Christum Dominum nostrum.
R.: Amen!
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Sexta-feira da 3ª Semana da Quaresma

São Lourenço em Lucina é um dos numerosos Santuários edificado em honra do Santo Diácono.
Durante os quarenta anos que passaram no deserto, Moisés e Araão pediram a Deus que fizesse brotar do rochedo, figura de Jesus Cristo, uma fonte de águas vivas onde todo o povo pudesse matar sua sede. No decorrer destes quarenta dias da Quaresma, a Igreja pede a Jesus Cristo de que nos dê aquela agua viva do qual nos falou a samaritana e que apaga a sede para sempre. Esta água é a nossa fé, é a graça, o sangue que corre das chagas abertas do Salvador, e ue pelas vias do Batismo, da Penitência e dos outros sacramentos, chega em nossa alma em forma de jatos de vida eterna. E é interessante salientar o paralelo que a arte antiga estabelecia entre São Pedro e Moisés. Moisé tocava o rochedo de onde saia a água, símbolo do batismo conferido pela Santa Igreja de que São Pedro é a cabeça.

Epístola
Leitura do Livro dos Números (20 1-3 e 6-13) : Naqueles dias: Toda a assembléia dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sin no primeiro mês. O povo ficou em Cades; ali morreu Maria, que foi sepultada no mesmo lugar. Como não houvesse água para a assembléia, o povo se ajuntou contra Moisés e Aarão, procurou disputar com Moisés e gritou: “Oxalá tivéssemos perecido com nossos irmãos diante do Senhor!Moisés e Aarão deixaram a assembléia e dirigiram-se à entrada da tenda de reunião, onde se prostraram com a face por terra. Apareceu-lhes a glória do Senhor, e o Senhor disse a Moisés: “Toma a tua vara e convoca a assembléia, tu e teu irmão Aarão. Ordenareis ao rochedo, diante de todos, que dê as suas águas; farás brotar a água do rochedo e darás de beber à assembléia e aos seus rebanhos.” Tomou Moisés a vara que estava diante do Senhor, como ele lhe tinha ordenado. Em seguida, tendo Moisés e Aarão convocado a assembléia diante do rochedo, disse-lhes Moisés: “Ouvi, rebeldes: acaso faremos nós brotar água deste rochedo?” Moisés levantou a mão e feriu o rochedo com a sua vara duas vezes; as águas jorraram em abundância, de sorte que beberam, o povo e os animais. Em seguida, disse o Senhor a Moisés e Aarão: “Porque faltastes à confiança em mim para fazer brilhar a minha santidade aos olhos dos israelitas, não introduzireis esta assembléia na terra que lhe destino.” Estas são as as águas de Meribá, onde os israelitas se queixaram do Senhor, e onde este fez resplandecer a sua santidade.

Evangelho do dia:
Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (4, 5-42) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Chegou, pois, a uma localidade da Samaria, chamada Sicar, junto das terras que Jacó dera a seu filho José. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: Dá-me de beber. (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.) Aquela samaritana lhe disse: Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!... (Pois os
judeus não se comunicavam com os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. A mulher lhe replicou: Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo... donde tens, pois, essa água viva? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos? Respondeu-lhe Jesus: Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna. A mulher suplicou: Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la! Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e volta cá. A mulher respondeu: Não tenho marido. Disse Jesus: Tens razão em dizer que não tens marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisto disseste a verdade. Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que és profeta!... Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar. Jesus respondeu: Mulher, acredita-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade. Respondeu a mulher: Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); quando, pois, vier, ele nos fará conhecer todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Sou eu, quem fala contigo. Nisso seus discípulos chegaram e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher. Ninguém, todavia, perguntou: Que perguntas? Ou: Que falas com ela? A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito. Não seria ele, porventura, o Cristo? Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos lhe pediam: Mestre, come. Mas ele lhes disse: Tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Os discípulos perguntavam uns aos outros: Alguém lhe teria trazido de comer? Disse-lhes Jesus: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra. Não dizeis vós que ainda há quatro meses e vem a colheita? Eis que vos digo: levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa. O que ceifa recebe o salário e ajunta fruto para a vida eterna; assim o semeador e o ceifador juntamente se regozijarão. Porque eis que se pode dizer com toda verdade: Um é o que semeia outro é o que ceifa. Enviei-vos a ceifar onde não tendes trabalhado; outros trabalharam, e vós entrastes nos seus trabalhos. Muitos foram os samaritanos daquela cidade que creram nele por causa da palavra da mulher, que lhes declarara: Ele me disse tudo quanto tenho feito. Assim, quando os samaritanos foram ter com ele, pediram que ficasse com eles. Ele permaneceu ali dois dias. Ainda muitos outros creram nele por causa das suas palavras. E diziam à mulher: Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo. Passados os dois dias, Jesus partiu para a Galiléia

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Quinta-feira da 3ª semana da Quaresma

Era no velho templo de Rômulo, transformado em Igreja e sarcófagos dos grandes mártires Cosme e Damião, que se reunia a estação de hoje. Os doentes acorriam em multidão ao túmulo destes dois grandes mártires, médicos de profissão a solicitar a graça da cura. Talvez este é o motivo que se lia ali o Evangelho da cura da sogra de Pedro e dos doentes de Cafarnaum. O judeus que possuíam o magnífico templo de Jerusalém, foram levados a crer, não se sabe com que fundamento, que a casa de Deus era por si bastante para os santificar, e dispensavam-se, de muito boamente, das observâncias da Lei. Os mesmos cristãos de nossos dias contentam-se com frequência a visitar um santuário onde descansam alguns restos mortais de algum santo devoto e evitam em sua grande maioria em imitar as suas grandes virtudes. Para castigar e corrigir estes erro em que muitos gostam muito de andar, trás a Santa Igreja hoje uma grande apelo para seguir os passos vigorosos de de Jeremias, em que o profeta se insurge contra aqueles que se mortificam e definham em vigílias e jejuns e não pensam no que realmente importa, no cultivo da alma e de todas as suas potências pelo exercício da caridade e da justiça pra com todos. É necessário que nesta parte do ano que acompanhemos os passo de nosso Redentor em continuação do seu ministério de resgate, em que o Evangelho nos apresenta ocupado, pregando o Reino de Deus, curando os doentes, expulsando os demônios. Aprendamos a ouvir com zelo e ardor a palavra de Deus, do Deus forte que curará nossas almas e que rejeitará para longe o demônio que procura perde-las e dominá-las. Os catecúmenos que se preparam para receber o santo Batismo também escutavam esta doutrina que vem na missa de hoje e receberiam a imposição das mão para se libertarem dos maus espíritos. Por intercessão dos Santos médicos Cosme e Damião, padroeiros da igreja onde se celebra a solenidade de hoje, peçamos ao médico divino que a dieta rigorosa do santo jejum quaresmal acalme a febre das paixões e nos assegure a consecução da vida eterna.

Epístola
Leitura do profeta Jeremias (7, 1-7): Naqueles dias:  A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: por que repetis continuamente esse provérbio entre os israelitas: os pais comeram uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados? Por minha vida - oráculo do Senhor Javé -, não tereis mais ocasião de repetir esse provérbio em Israel. É a mim que pertencem as vidas, a vida do pai e a vida do filho. Ora, é o culpado que morrerá. O homem justo - que procede segundo o direito e a eqüidade, que não participa dos festins das montanhas, que não volve os olhos para os ídolos da casa de Israel, que não desonra a mulher do próximo, e não tem relação com uma mulher durante o tempo de sua impureza, que não oprime ninguém, que restitui o penhor ao seu devedor, que não exerce a rapina, que dá seu pão aos famintos, e cobre com vestimenta o que está nu, que não empresta à taxa usurária e não recebe com juros, que afasta a sua mão da iniqüidade, e julga eqüitativamente entre um homem e outro, que segue os meus preceitos e observa as minhas leis, para proceder com retidão - esse homem é um justo: certamente viverá. Oráculo do Senhor Javé.

Evangelho do dia:
Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (4, 38-44) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Saindo Jesus da sinagoga, entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta; e pediramlhe por ela. Inclinando-se sobre ela, ordenou ele à febre, e a febre deixou-a. Ela levantou-se imediatamente e pôs-se a servi-los. Depois do pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias lhos traziam. Impondo-lhes a mão, os sarava. De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: Tu és o Filho de Deus. Mas ele repreendia-os severamente, não lhes permitindo falar, porque sabiam que ele era o Cristo. Ao amanhecer, ele saiu e retirou-se para um lugar afastado. As multidões o procuravam e foram até onde ele estava e queriam detê-lo, para que não as deixasse. Mas ele disse-lhes: É necessário que eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão. E andava pregando nas sinagogas da Galiléia.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Quarta-feira da 3ª Semana da Quaresma

A estação de hoje reunia-se em São Sisto na Via Apia. Dizem algum que foi neste lugar que São Lourenço, cheio de respeito e deferência para com o sucesso de São Pedro, pediu ao Papa São Sixto a graça de acompanhar como ministro do sacrifício que o glorioso Pontífice, condenado a morte ia celebrar.
Os pagãos inscritos neste dia do catecumenato começavam a assistir até a Páscoa a doutrina da Igreja, expressa na parte da missa chamada de "missa dos catecúmenos". Assim a Epístola e o Evangelho recordam as prescrições do Decálogo e da pureza da intenção e da lealdade exigida para a reta observância dos mandamentos de Deus. Só o cenário da promulgação no Monte Sinai é o bastante por si só para nos incutir uma grande idéia deles. Mas confirmado e renovados por Cristo no espírito interior alcançaram ainda maior amplitude.  Os judeus haviam adicionado ao Decálogo tradições exclusivamente humanas, consistindo em formalidades meramente exteriores, a que davam maior importância que a própria lei de Moisés. O Senhor condena este proceder e a Igreja procura por-nos de guarda para o perigo de nos perdermos na observância de práticas e ritos exteriores  a que não corresponde com o espirito interior da caridade. É com efeito necessário que a nossa penitência, para que possa agradar a Deus, proceda de um coração a transbordar de amor de Deus e do próximo, porque é de lá que provém o mérito ou demérito das obras humanas. Por isso a mortificação corporal tenhamos grande cuidado de juntar a prática das virtudes.

Epístola
Leitura do Livro do Êxodo : Naqueles dias (20, 12-24): Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, teu Deus. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence.” Diante dos trovões, das chamas, da voz da trombeta e do monte que fumegava, o povo tremia e conservava-se à distância. E disseram a Moisés: “Fala-nos tu mesmo, e te ouviremos; mas não nos fale Deus, para que não morramos.” Moisés respondeu-lhes: “Não temais, porque é para vos provar que Deus veio e para que o seu temor, sempre presente aos vossos olhos, vos preserve de pecar”. E o povo conservou-se à distância, enquanto Moisés se aproximava da nuvem onde se encontrava Deus. O Senhor disse a Moisés: “Eis o que dirás aos israelitas: vistes que vos falei dos céus. Não fareis deuses de prata, nem deuses de ouro para pôr ao meu lado. Tu me levantarás um altar de terra, sobre o qual oferecerás teus holocaustos e teus sacrifícios pacíficos, tuas ovelhas e teus bois. Em todo lugar onde eu fizer recordar o meu nome, virei a ti para te abençoar.

Evangelho do dia:
Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (15, 1-20) : Naquele tempo: Alguns fariseus e escribas de Jerusalém vieram um dia ter com Jesus e lhe disseram: Por que transgridem teus discípulos a tradição dos antigos? Nem mesmo lavam as mãos antes de comer. Jesus respondeu-lhes: E vós, por que violais os preceitos de Deus, por causa de vossa tradição? Deus disse: Honra teu pai e tua mãe; aquele que amaldiçoar seu pai ou sua mãe será castigado de morte (Ex 20,12; 21,17). Mas vós dizeis: Aquele que disser a seu pai ou a sua mãe: aquilo com que eu vos poderia assistir, já oferecia Deus, esse já não é obrigado a socorrer de outro modo a seus pais. Assim, por causa de vossa tradição, anulais a palavra de Deus. Hipócritas! É bem de vós que fala o profeta Isaías: Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens (Is 29,13). Depois, reuniu os assistentes e disse-lhes: Ouvi e compreendei. Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. Eis o que mancha o homem. Então se aproximaram dele seus discípulos e disseram-lhe: Sabes que os fariseus se escandalizaram com as palavras que ouviram? Jesus respondeu: Toda planta que meu Pai celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala. Tomando então a palavra, Pedro disse: Explica-nos esta parábola. Jesus respondeu: Sois também vós de tão pouca compreensão? Não compreendeis que tudo o que entra pela boca vai ao ventre e depois é lançado num lugar secreto? Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. Eis o que mancha o homem. Comer, porém, sem ter lavado as mãos, isso não mancha o homem.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

terça-feira, 21 de março de 2017

Terça-Feira da 3ª Semana da Quaresma

A estação se reúne no antigo santuário de Santa Prudenciana, edificado no lugar onde fora a casa do senador Pudêncio. Crê-se ter sido no século II residência dos sumos pontífices. 

A clemencia dos judeus limitava-se a perdoar três vezes. O Senhor no evangelho prescreve-se que se perdoe setenta vezes sete, quer dizer, sempre. A misericórdia com a renúncia que implica faz parte da penitência quaresmal. E é por este motivo que a Epístola nos mostra, no pequeno resíduo de azeite maravilhosamente acrescentado e na venda do mesmo que permitiu a pobre viúva libertar-se de um credor inexorável, uma figura da misericórdia do Salvador cujos méritos dão a cada alma o com que solver a dívida do pecado. Mas para participar dos merecimentos do Senhor é necessário exercitarmos também com os outros a caridade. Expiemos os nossos pecados e perdoemos aos que nos ofenderam para que eles nos perdoem também. 

Epístola:

Leitura do Livro dos Reis (4, 4, 1-7). Naqueles dias uma mulher dentre as mulheres dos profetas gritou a Eliseu, dizendo: Meu marido, teu servo, morreu, e tu sabes que teu servo era temente ao Senhor; e agora eis que vem o credor levar-me os meus dois filhos para fazer seus escravos. Eliseu disse-lhe: Que queres que eu faça? Dize-me, que tens em tua casa? E ela respondeu: Eu, tua serva, não tenho em minha casa outra coisa, senão um pouco de azeite para me ungir. Disse-lhe Eliseu: Vai, e pede emprestadas as tuas vizinhas bastante vasilhas vazias. Depois, entra, e fecha a tua porta, quando estiveres de dentro tu e os teus filhos; e deita do azeite em todas estas vasilhas; e, estando cheias, as porás a parte. Foi pois a mulher, e fechou a porta sobre si e sobre seus filhos; os filhos chegavam-lhe as vasilhas, e ela as enchia. Cheias que foram as vasilhas, disse ela um de seus filhos: Chega-me cá ainda outra vasilha. E ele respondeu: Não tenho mais. E o azeite cessou (de multiplicar). Foi pois ela, e referiu tudo ao homem de Deus. E ele disse: Vai, vende o azeite, e paga teu credor; e tu e teus filhos viverei do resto. 

Continuação do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (18, 15-22): Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão.  Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.



Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.