sexta-feira, 25 de maio de 2012

Teologia Ascética e Mística: Da Parte da Santíssima Virgem, dos santos e dos anjos na vida cristã (Parte VI)

À confiança juntaremos o amor, amor filial, cheio de candura, simplicidade, ternura e generosidade. Mas é seguramente a mais amável das mães, pois que tendo-A Deus destinado para ser Mãe de seu Filho, lhe deu todas as qualidades que tornam uma pessoa amável: a delicadeza, a prudência, a bondade, a dedicação da mãe. E a mais amante, visto que o seu coração foi criado expressamente para amar um Filho-Deus e amá-lo com a possível perfeição. Ora esse amor que Ela tinha para com seu Filho, traspassa-o para nós que somos membros vivos desse divino Filho, sua extensão e complemento. E assim, esse amor resplandece no mistério da Visitação, em que Ela se apressa a levar a sua prima Isabel aquele Jesus que recebeu em seu seio e que, só pela sua presença, santifica toda a casa; nas bodas de Caná, onde, atenta a tudo o que se passa, intervém junto de seu Filho, para evitar aos jovens esposo: uma dolorosa humilhação; no Calvário, onde consente em sacrificar o que tem de mais caro, para nos salvar; no Cenáculo, onde exercita o seu poder de intercessão, para obter aos Apóstolos maior abundância dos dons do Espírito Santo.

Se Maria é a mais amável e a mais amante das mães, deve ser também a mais amada. E, na verdade, é este um dos seus privilégios mais gloriosos; em toda a parte, onde Jesus é conhecido e amado, é-o também Maria. Não se separa a Mãe do Filho; e, sem jamais se esquecer a diferença entre um e outro envolvem-se na mesma afeição, posto que em grau diferente: ao Filho tributa-se o amor que é devido a Deus, a Maria, o que se deve à Mãe dum Deus: amor terno, generoso, dedicado mas subordinado ao amor de Deus. É amor de complacência, que se goza das grandezas, virtudes e prerrogativas de Maria, repassando-as amiúde pela memória, admirando-as, comprazendo-se nelas e dando-lhe o parabéns de a vermos tão perfeita. Mas é também amor e benevolência, que deseja sinceramente que o nome de Maria seja mais conhecido e amado, que ora para que se estenda a sua influência sobre as almas, e à oração ajunta a palavra e ação. É amor filial, cheio de ilimitada confiança e simplicidade, de ternura e dedicação, chegando até àquela intimidade respeitosa que a mãe permite a seu filho. É enfim e sobretudo amor de conformidade, que se esforça por conformar em todas as coisas a sua vontade com a de Maria e, por esse modo, com a de Deus, já que a união das vontades é o sinal, mais autêntico da amizade. É o que nos leva à imitação da Santíssima Virgem.

A imitação é, com efeito, a homenagem mais delicada que se lhe pode tributar; é proclamar não somente com palavras, senão com atos, que Ela é um modelo perfeito, cuja imitação é para nós suprema ventura. Já dissemos (n." 159) como, sendo Maria uma cópia viva de seu Filho, nos dá o exemplo de todas as virtudes. Aproximar-se dela é aproximar-se de Jesus; e por isso é que não podemos fazer nada mais excelente do que estudar as suas virtudes, meditá-Ias amiúde, esforçar-nos por as reproduzir.

Para melhor o alcançarmos, não podemos seguir método mais eficaz do que praticar todas e cada uma das nossas ações por Maria, com Maria e em Maria: per Ipsem ei cum Ipse, et in Ipsa¹. Por Maria, isto é, pedindo por meio dela as graças de que precisamos para a imitar, passando por Ela para ir a Jesus, ad lesum per Mariam.

Com Maria. isto é, considerando-A como modelo e colaboradora, perguntando-nos muitas vezes: Que faria a Mãe Santíssima, se estivesse em meu lugar?, e pedindo-lhe humildemente que nos auxilie a conformar as nossas ações com os seus desejos.

Em Maria na dependência desta boa Mãe, compenetrando-nos dos seus desígnios, das suas intenções, e fazendo as nossas ações, como Ela, para glorificar a Deus: Magnificat anima mea Dominum.

É com este espírito que havemos de recitar, em honra da Senhora, a Ave-Maria e o Angelus que lhe relembram a cena da Anunciação e o seu título de Mãe de Deus; o Sub tu um praesidium, que é o ato de confiança naquela que nos protege no meio de todos os nossos perigos; o Domina mea, que é o ato de entrega completa nas suas mãos, pelo qual lhe confiamos a nossa pessoa, as nossas ações e os nossos méritos; e sobretudo o Terço ou o Rosário, que, unindo-nos aos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, nos permite santificar em união com Ela e com Jesus, as nossas tristezas e as nossas glórias. O Officíum Peroam da Santíssima Virgem é, para as pessoas que o podem recitar, o equivalente do Breviário, e relembra-lhes muitas vezes ao dia as grandezas, a santidade e a missão santificadora desta Boa Mãe.

 1 Era o piedoso exercício de M. Olier que S. Grignion de Monfort aperfeiçoou e tornou popular no Secret de Marie e no Traité de Ia Vraie dévotion à Ia Sainte Vierge

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

Nenhum comentário: