terça-feira, 22 de novembro de 2011

Preparação para a morte: Paz do justo na hora da morte

Justorum animae in manu Dei sunt; non tanget illos tormentum mortis; visi sunt oculis insipien-tium mori, illi autem sunt in pace. As almas dos justos estão na mão de Deus e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; mas e-les estão em paz (Sb 3,1).

 PONTO I
Justorum animae in manu Dei sunt. Se Deus tem em suas mãos as almas dos justos: quem é que poderá lhas arrebatar? Certo é que o inferno não dei-xa de tentar e perseguir os próprios Santos na hora da morte, mas Deus, — diz Santo Ambrósio, — não cessa de assisti-los, aumentando seu socorro à me-dida em que cresce o perigo de seus servos fiéis1. O servo de Eliseu ficou consternado quando viu a cida-de cercada de inimigos. Mas o Santo animou-o, di-zendo: “Não temas, porque há mais gente conosco que da parte deles” (4Rs 6,16), e em seguida mos-trou-lhe um exército de anjos enviados por Deus para a sua defesa. O demônio não deixará de tentar o mo-ribundo, mas acudirá também o Anjo da Guarda para confortá-lo; virão os santos protetores; virá São Mi-guel, destinado por Deus para a defesa dos servos fiéis, no combate derradeiro; virá a Virgem Santíssi-ma, e acolhendo sob o seu manto quem foi seu devo-to, derrotará os inimigos; virá Jesus Cristo mesmo a livrar das tentações essa ovelha inocente ou peniten-te, cuja salvação lhe custou a vida. Dar-lhe-á a espe-rança e a força necessária para vencer nessa bata-lha, e a alma, cheia de valor, exclamará: “O Senhor se fez meu auxiliador” (Sl 29,11). “O senhor é a mi-nha luz e a minha salvação: que tenho a recear?” Sl 26,1). Deus é mais solícito para salvar-nos do que o demônio para perder-nos; porque Deus nos tem mais amor que aborrecimento nos tem o demônio.
Deus é fiel — disse o Apóstolo, e não permite que sejamos tentados além das nossas forças (1Cor 10,13). Dir-me-eis que muitos santos morreram com receio da sua salvação. Respondo que são pouquís-simos os exemplos de pessoas que, depois de uma vida boa, tenham morrido com esse temor. Vicente de Beauvais diz que o Senhor permite, às vezes, que isto ocorra a alguns justos, a fim de, na hora da mor-te, purificá-los de certas faltas leves. Por outra parte, lemos que quase todos os servos de Deus morreram com o sorriso nos lábios. Todos tememos na morte o juízo de Deus; mas, assim como os pecadores pas-sam desse temor ao horrendo desespero, os justos passam do temor à esperança.
Segundo refere Santo Antonino, São Bernardo, estando enfermo, sentia-se receoso e estava tentado de desconfiança, mas, lembrando-se dos merecimen-tos de Jesus Cristo, dissipou-se-lhe todo o temor, e dizia: Vossas chagas são meu merecimento. Santo Hilarião temia também, mas exclamou logo alegre-mente: “Que temes tu, minha alma? Cerca de se-tenta anos serviste a Cristo; e agora temes a mor-te?” O que equivale a dizer: Que temes, minha alma, depois de haver servido a um Deus fidelíssimo, que não sabe abandonar os que lhe foram fiéis durante a vida? O Padre José de Scamaca, da Companhia de
Jesus, respondeu aos que lhe perguntaram se morria com esperança: Então! Servi acaso a Maomé para duvidar da bondade de meu Deus, até ao ponto de temer que não queira salvar-me? Se na hora da mor-te vier a atormentar-nos o pensamento de termos al-guma vez ofendido a Deus, recordemos que o Se-nhor prometeu esquecer os pecados dos penitentes (Ez 18,31-32). Dirá alguém talvez: Como poderemos estar seguros de que Deus nos perdoou?... Essa mesma pergunta se fez São Basílio4, e respondeu, dizendo: Não só odiei a iniqüidade, mas a abominei. Aquele que detesta o pecado pode estar certo de que Deus lhe perdoou. O coração do homem não vive sem amor: ou ama a Deus ou ama as criaturas. Mas quem é que ama a Deus? Aquele que observa os seus mandamentos (Jo 14,21). Portanto, aquele que morre observando os preceitos de Deus, morre a-mando a Deus; e o que ama a Deus, nada tem a te-mer (Jo 4,18).

AFETOS E SÚPLICAS
Ó Jesus! Quando chegará o dia em que vos pos-sa dizer: Deus eu, já não vos posso perder? Quando poderei vos contemplar face a face, certo de amar-vos com todas as minhas forças por toda a eternida-de? Ah, Sumo Bem e meu único amor! Enquanto vi-ver, estarei sempre em perigo de ofender-vos e per-der vossa graça. Houve um tempo de desleixo em que não vos amei, em que desprezei vosso amor... Pesa-me 29 dele com toda a minha alma, e espero que me tenhais perdoado, pois vos amo de todo o coração e desejo fazer quanto possa para amar-vos e vos ser agradável. Mas como ainda estou em perigo de negar-vos meu amor e de afastar-me de vós outra vez, rogo-vos, meu Jesus, minha vida e meu tesouro, que não o permitais... Se tão grande desgraça tiver de me suceder, fazei-me antes morrer neste momen-to da morte mais dolorosa que escolhereis, que assim o desejo e vo-lo peço. Meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo, não me deixeis cair em tão grande ruína! Cas-tigai-me como vos aprouver. Mereço-o e o aceito, mas livrai-me do castigo de ver-me privado do vosso amor e da vossa graça. Meu Jesus, recomendai-me ao vosso Pai! Maria, minha Mãe, rogai por mim ao vosso divino Filho; alcançai-me a perseverança em sua amizade e a graça de amá-lo; e depois que faça de mim o que lhe aprouver.

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