terça-feira, 30 de agosto de 2011

Preparação para a morte: Incerteza da hora da morte

PONTO II
O Senhor não nos quer ver perdidos. Por isso, com ameaça de castigo, não cessa de advertir-nos que mudemos de vida. “Se não vos converterdes, vibrará sua espada” (Sl 7,13). Vede — disse em ou-tra parte — quantos são os desgraçados que não quiseram emendar-se, e a morte repentina os surpre-endeu quando não esperavam, quando viviam des-preocupados, julgando terem ainda muitos anos de vida (1Ts 5,3). Disse-nos também: “Se não fizerdes penitência, todos haveis de perecer”. Por que tantos avisos do castigo antes de infligi-lo, senão porque quer que nos corrijamos e evitemos morte funesta. Quem dá aviso para que nos acautelemos, não tem a intenção de matar-nos — disse Santo Agostinho.
É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida as-sim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a tré-gua de mais um ano, um mês, um dia sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não pões em ordem tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? “Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque sua ira poderá irromper de súbito e no tempo da vingança te per-derás” (Ecl 5,7). Para salvar-te, meu irmão, deves abandonar o pecado.
E se algum dia hás de abandoná-lo, por que o não deixas desde já? (Santo Agostinho). Esperas, talvez, que chegue a morte? Mas esse instante não é tempo do perdão, senão da vingança. “No tempo da

vingança, te perderás”.
Se alguém te deve soma considerável, tratas de assegurar o pagamento por meio de obrigação escri-ta, firmada pelo devedor; dizes: Quem sabe o que pode suceder? Por que, então, deixas de usar da mesma precaução, tratando-se da alma, que vale muito mais que o dinheiro? Por que não dizes tam-bém: quem sabe o que pode ocorrer? Se perderes aquela soma, não estará ainda tudo perdido e ainda que com ela perdesses todo o patrimônio, ficaria a esperança de o poder recuperar. Mas se, ao morrer, perdesses a alma, então, sim, tudo estaria irremedia-velmente perdido, sem esperança de recobrar coisa alguma.
Cuidas em arrolar todos os bens de que és pos-suidor, com receio 17 de que se percam quando so-brevier morte repentina. E se esta morte imprevista te achasse na inimizade para com Deus? Que seria de tua alma na eternidade?

AFETOS E SÚPLICAS
Ah! meu Redentor, derramastes todo o vosso sangue, destes a vida para salvar minha alma, e eu, quantas vezes a perdi, confiando em vossa miseri-córdia! Abusei de vossa bondade para vos ofender; mereci, por isso, que me deixásseis morrer e precipi-tásseis no inferno.
Estamos, pois, como que numa competição. Vós

usando piedade comigo, eu vos ofendendo; vós a correr para mim; eu fugindo de vós; vós, dando-me tempo para reparar o mal que pratiquei, eu, valendo-me desse tempo para acrescentar injúria a injúria. Senhor, fazei-me conhecer a grandeza das ofensas que vos fiz, e a obrigação que tenho de amar-vos.
Ah! meu Jesus! Como podeis amar-me ao ponto de ir à minha procura, quando eu vos repelia? Como cumulastes de tantos benefícios a quem de tal modo vos ofende? De tudo isto vejas quando desejais não me ver perdido. Arrependo-me de ter ultrajado a vos-sa infinita bondade.
Aceitai, pois, esta ovelha ingrata que volta a vos-sos pés. Recebe-ia e ponde-a aos ombros para que não fuja mais. Não quero apartar-me de vós, mas amar-vos e pertencer-vos inteiramente. E desde que seja vosso, gostosamente aceitarei qualquer trabalho. Que desgraça maior poderia afligir-me do que viver sem vossa graça, afastado de vós, que sois meu Deus e Senhor, que me criou e que morreu por mim? Ó malditos pecados, que fizestes? Induzistes-me a ofender a meu Salvador, que tanto me amou.
Assim como vós, meu Jesus, morrestes por mim, assim deverei eu morrer por vós. Morrestes pelo a-mor que me tendes. Eu deverei morrer de dor por vos ter desprezado. Aceito a morte como e quando vos aprouver enviá-la. Mas, já que até agora pouco ou nada vos hei amado, não quisera morrer assim. Dai-me vida para que vos ame antes de morrer.

Para isso, renovai meu coração, feri-o, inflamai-o com o vosso santo amor. Atendei-me, Senhor, por aquela ardentíssima caridade que vos fez morrer por mim. Amo-vos de toda a minha alma. Não permitais que vos perca. Dai-me a santa perseverança. Dai-me o vosso amor.
Maria Santíssima, minha Mãe e meu refúgio, se-de minha advogada!

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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