quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Catecismo Romano: "Morto e sepultado" (Parte II)

Confessamos que Jesus depois de morto foi sepultado. Propõe-se esta parte do artigo, não porque contenha nova dificuldade, além das que já foram resolvidas acerca da sua morte. Na verdade, se cremos que Jesus Cristo morreu, fácil será também persuadir-nos de que foi sepultado.

Acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de sua morte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Este fato devia também dar maior prova e realce ao milagre da ressurreição.

Conforme o dogma da fé expresso por palavras, não cremos só que o corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a fé católica, que Deus morreu, e que nasceu de uma virgem. De fato, assim como a Divindade nuca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado.

Quanto a maneira e lugar da sepultura, basta-nos ater à exposição dos Santos Evangelistas. Dois fatos há, aos quais deve voltar a particular atenção. O primeiro é que o corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda a decomposição, conforme havia vaticinado o profeta: "Não permitirei que vosso santo sofra a corrupção" (Sal 15,10).

O segundo é que todas as partes deste artigo, a saber, a sepultura, a paixão e a morte, são atribuídas a Cristo Jesus, enquanto homem, e não enquanto Deus. O sofrer e o morrer são um quinhão exclusivo da natureza humana. Isto não obstante, enunciamos todas estas coisas em relação a Deus. Como é evidente, podem ser ditas também daquela pessoa que, ao mesmo tempo, é Deus perfeito e perfeito homem.

Após esta exposição, devemos nos ater no propósito da Paixão e Morte de Cristo, em algumas reflexões apropriadas, pelas quais os fiéis consigam, senão compreender, ao menos meditar a profundeza de tão grande mistério.

Em primeiro lugar, devem considerar quem é aquele que suporta todos esses sofrimentos. Realmente, não temos palavras para explicar sua dignidade, nem inteligência capaz de compreendê-la.

São João diz ser o "Verbo que estava com Deus" (Jo 1,1). O apóstolo designa-o, em linguagem sublime, como sendo aquele "a quem Deus constituiu Herdeiro do Universo, e pelo qual também criou os séculos; o qual é resplendor de sua glória e a linguagem de sua essência; o qual sustenta o universo com o poder de sua palavra" (Heb 1,2-3). E aquele que "depois de dar resgate pelos pecados, está sentado a direita da Majestade nas alturas" (Heb 1,2-3).

Para dizer tudo numa palavra, quem sofre é Jesus Cristo, Deus e homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas criaturas. Sofre o Senhor pelos seus escravos. Sofre aquele que criou os anjos, os homens, os céus e os elementos da natureza. Aquele, afinal, "em quem, por quem, e de quem subsistem todas as coisas" (Rom 11,36).

Se ele se contorcia aos golpes de tantos tormentos, que muito se abalasse também todo o edifício do mundo, como diz a escritura: "A terra tremeu, e partiram-se os rochedos" (Mt 27,51); "toda a terra se cobriu de escuridão, e o sol perdeu sua claridade". Ora, se até as criaturas mudas e insensíveis prantearam o sofrimento do seu Criador, reconheçam os fiéis com que lágrimas devem exprimir a própria dor, "este que são pedras vivas deste edifício" (1Ped 2,5).

(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - Ed Vozes - 1962)

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