sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Teologia Ascética e Mística: Os nossos deveres para com a Santíssima Trindade que vive em nós


Quem possui dentro de si um tesouro como a Santíssima Trindade, deve pensar nele muitas vezes. Ora este pensamento faz nascer três sentimentos principais: a adoração, o amor e a imitação.


O primeiro sentimento, que brota espontaneamente do coração, é o da adoração: "Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo"(1Cor 6, 20). E na verdade, como não glorificar, bendizer, dar graças as estes hóspede divino que nos transforma a alma em um verdadeiro santuário? Quando Maria Santíssima recebeu em seu seio casto o Verbo Encarnado, a sua vida desde então, não foi mais que um ato perpétuo de adoração e recolhimento: E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor... porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo"(Luc 1, 46, 49): tais são também, posto que em grau inferior, os sentimentos duma alma que se compenetram na habitação do Espírito Santo em si mesma: compreende que, sendo templo de Deus deve oferecer-se interruptamente como hóstia de louvor à glória das três pessoas divinas. a) Ao princípio das suas ações, fazendo o sinal da cruz in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti, consagra-lhe cada uma delas; ao terminá-las, reconhece que todo o bem que fez lhe deve ser atribuído: Glória Patri et Filio et Spiritui Sancto. b) Delicia-se a repetir as orações litúrgicas que celebram os louvores da Santíssima Trindade: o Glória in excelsis Deo, que exprime tão bem todos os sentimentos de religião para com as divinas pessoas e sobretudo para com o verbo Encarnado; o sanctus, que proclama a santidade divina; o Te Deum que é um hino de gratidão. c) Em presença deste hóspede divino que, por ser tão bondoso, nem por isso deixa de ser Deus, reconhece a alma humildemente a sua inteira dependência daquele que é seu primeiro princípio e último fim, a sua incapacidade de o louvar como ele merece, e, neste sentimento, une-se ao espírito de Jesus, o único que pode dar a Deus a glória a que ele tem direito: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis"(Rom 8, 26).


Depois de ter adorado a Deus e proclamado o próprio nada, deixa-se a alma levar aos sentimentos do amor mais repassado de confiança. Com ser Deus de infinita majestade, inclina-se para nós como Pai mais amante para seu filho e convida-nos a amá-lo, a dar-lhe o nosso coração: "Meu filho, dá-me teu coração. Que teus olhos observem meus caminhos"(Prov 23, 26). Este amor, tem Ele de o exigir imperiosamente; prefere contudo pedir-no-lo docemente, afetuosamente, para que haja, por assim dizer, mais espontaneidade em nossa correspondência, mais confiança filial em nosso recurso a Ele. Como não corresponder a tão delicadas finezas, a tão maternais solicitudes com amor cheio de confiança? Será amor penitente, para expiar as tão numerosas infidelidades no passado e no presente; amor reconhecido, para dar graças a este insigne benfeitor, a este colaborador dedicado, que nos cultiva a alma com tanta solicitude; mas sobretudo amor de amizade, que nos fará conversar docemente com o mais fiel e generoso dos amigos, e abraçar todos os seus interesses, procurar a sua glória, fazer glorificar o seu santo nome. Não será, pois, mero sentimento afetuoso: será amor generoso, que vá até o sacrifício e esquecimento de si mesmo, até à renúncia da vontade própria pela submissão aos preceitos e conselhos divinos.


Este amor levar-nos-á, a imitação da Adorável Trindade na medida em que esta é compatível com a fraqueza humana. Filhos adotivos de um Pai infinitamente Santo, templos vivos do Espírito Santo, compreendemos melhor a necessidade de respeitar o nosso corpo e a nossa alma. Era esta a conclusão que o Apóstolo inculcava a seus discípulos: "Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós"(1Cor 3, 16-17). A experiência prova que não há, para as almas generosas, motivo mais poderoso que aquele, para as desviar do pecado e excitar as práticas das virtudes. E na verdade, não é mister purificar e adornar incessantemente um templo onde reside o Deus três vezes santo? Demais quando Jesus Cristo nos quer propor um ideal de perfeição, não o vai buscar fora da Santíssima Trindade: "Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito"(Mat 5, 48). À primeira vista, parece excessivamente elevado este ideal; se porém, nos lembrarmos que somos filhos adotivos do Pai, e que Ele vive em nossa alma, para nela imprimir a sua imagem e colaborar em nossa santificação, compreendemos que nobreza obriga e que é um dever aproximar-nos incessantemente das divinas perfeições. É sobretudo para praticar a caridade fraterna que Jesus nos pede que tenhamos diante dos olhos este modelo perfeito, que é indivisível unidade das três pessoas divinas: "Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste"(João 17, 21). Oração enternecedora, de que São Paulo um dia se fará eco, suplicando aos seus caros discípulos para que não esqueçam, eles sendo como são um só corpo e um só espírito, e não tendo senão um único e mesmo Pai que habita em todos os justos, devem conservar a unidade do espírito pelo vínculo da Paz (Efe 4, 3-6).


Para resumir tudo, podemos concluir que a vida cristã consiste, antes de tudo, numa união íntima, afetuosa e santificante com as três pessoas divinas, que nos conserva no espírito de religião, amor e sacrifício.


(Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Ed. Apostolado da Imprensa - 1961 - 6ª edição)

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