terça-feira, 15 de novembro de 2011

preparação para a morte: A morte do Justo

PONTO III
A morte não é somente o fim dos nossos traba-lhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo. Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: O’ morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2).
São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um es-queleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus.
Disse São João Crisóstomo que, se um rei tives-se mandado preparar para alguém suntuosa habita-ção no seu próprio palácio, e, no entanto, os man-dasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!... Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que David dizia: “Livrai minha alma da prisão” (Sl 141,8). E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino-Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cár-cere desta vida: “Agora, Senhor, despede o teu ser-vo... (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, — pede ser despedido, como se estivesse preso à força”. Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia: “Tenho desejo de me ver livre desta carne, e estar com Cristo” (Fl 3,32).
Quanta alegria sentiu o copeiro do Faraó ao sa-ber de José que dentro em pouco sairia da prisão e voltaria ao exercício de seu posto. E uma alma que ama a Deus não se regozijará ao pensar que em breve sairá da prisão deste mundo para ir gozar a Deus? Enquanto vivemos unidos ao corpo, estamos impedi-dos de ver a Deus, e como em terra estranha, fora da pátria. Com razão disse São Bruno que a nossa morte não se deve chamar morte, senão vida.
Daí vem o chamar-se nascimento a morte dos Santos, porque nesse instante nascem para a bem-aventurança eterna, que não terá fim. “Para o justo — disse Santo Atanásio — não há morte, apenas trânsi-to, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz. “Ó morte amável! — exclama Santo Agostinho — quem não tem te deseja-rá, pois és fim dos trabalhos, termo das angústias, princípio do descanso!” E com instância pedia: Oxalá morresse, Senhor, para vos poder ver! O pecador teme a morte — diz São Cipriano, — porque da vida temporal passará à morte eterna11, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida. Na vida de São João, o Esmoler, se refere que um homem rico dera ao Santo esmolas avultadas, a fim de pedir este a Deus vida longa para o único filho que ele tinha. Mas o moço morreu pouco tempo depois. Como o pai se lamentasse dessa mor-te inesperada, Deus lhe enviou um anjo que lhe dis-se: “Pediste longa vida para teu filho, pois saibas que já está no céu gozando da eterna felicidade.” Tal é a graça que vos alcança Jesus Cristo, segundo a pro-messa que foi feita pelo profeta Oséias: O’ morte, eu hei de ser a tua morte (Os 13,14). Cristo, morrendo por nós, fez com que a morte se transformasse em vida. Aqueles que conduziram ao suplício o mártir São Piôncio, perguntaram-lhe maravilhados como podia ir tão alegremente para a morte. “Ah! — res-pondeu o Santo, — estais enganados! Não vou para a morte e sim para a vida”. Do mesmo modo também a mãe do jovem Sinforiano exortava seu filho quando estava para sofrer o martírio: “Ó meu filho, não vão tirar-te a vida, senão para convertê-la em outra me-lhor!”

AFETOS E SÚPLICAS
Ó Deus de minha alma! Ofendi-vos em minha vi-da passada, afastando- me de vós; mas vosso Divino Filho vos honrou na cruz com o sacrifício de sua vida. Em consideração dessa honra que vos tributou vosso Filho amantíssimo, perdoai-me as injúrias que vos fiz. Arrependo- me, Senhor, de vos ter ofendido, e pro-meto amar somente a vós doravante. De vós espero minha eterna salvação, assim como reconheço que todos os bens que possuo, houve-os de vossa graça, pois todos são dons de vossa bondade. “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10). Se, pelo pas-sado, vos ofendi, espero honrar-vos eternamente, louvando vossa misericórdia... Sinto vivíssimo desejo de vos amar... Sois vós, Senhor, que mo inspirais, e vos dou, meu amor, fervorosas graças.
Continuai, continuai a ajudar-me como agora, que espero ser vosso, inteiramente vosso. Renuncio aos prazeres deste mundo. Que maior gozo, Senhor, posso ter que comprazer-me em vós, meu Senhor, que sois tão amável e que tanto me tendes amado? Só vos peço amor, ó Deus de minha alma! Amor e sempre amor espero pedir-vos, até que, morrendo em vosso amor, alcance o reino do verdadeiro amor, onde, sem o pedir, de amor me abrase, não cessan-do de vos amar nem um momento por toda a eterni-dade, e com todas as minhas forças.
Maria, minha Mãe, que tanto amais a Deus e tan-to desejais que seja amado, fazei que muito o ame nesta vida, a fim de que possa amá-lo para sempre na eternidade!

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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