Teologia Ascética e Mística - Da Graça Sacramental


Os sacramentos conferem graças especiais em relação aos diversos estágios que temos de percorrer na vida. 

a) No Batismo, é uma graça de regeneração espiritual, que nos purifica do pecado original, nos faz nascer na vida da graça, e cria em nós o homem novo, o homem regenerado que vive na vida de Cristo. Segundo a bela doutrina de São Paulo,  pelo batismo somos sepultados com Cristo ( é o que outrora figura o batismo de imersão), e ressuscitamos com Ele, para vivermos duma vida nova: Consepulti  enim sumus cum illo per baptismum in mortem, ut quomodo Christus suxexit a mortuis, ita et nos in novitate vitæ ambulemus". A graça especial e sacramental que se nos confere é, pois: 1) Uma graça de morte ao pecado, de crucifixão especial, que nos permite combater e mortificar as tendências más do homem velho; 2) uma graça de regeneração que nos incorpora em Jesus Cristo, nos faz participantes de sua vida, e nos permite viver em conformidade com os sentimentos e exemplos de Jesus Cristo, e ser assim perfeitos cristãos. Donde se deriva para nós a obrigação de combater o pecado e as suas causas,  de aderir a Jesus Cristo e imitar a suas virtudes.

b) A Confirmação nos faz soldados de Cristo; acrescenta ao batismo uma graça especial de força, para professarmos generosamente a fé contra todos os inimigos, e sobretudo contra o respeito humano, que impede tão grande número de homens de praticar os seus deveres religiosos. É para isso que os dons do Espírito Santo, que já nos tinha sido comunicados pelo batismo, nos são nesse dia conferidos, de modo mais especial, para iluminarem a nossa fé, tornando-a mais viva e penetrante, e fortificarem ao mesmo tempo a nossa vontade contra todos os desfalecimentos. Donde a necessidade de cultivar os dons do Espírito Santo, sobretudo a virilidade cristã.

c) A Eucaristia alimenta-nos a alma que, como o corpo, tem necessidade de se nutrir, para viver e se fortificar. Ora, para sustentar uma vida divina, não se quer nada menos que um alimento divino: será o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, sua alma e divindade, que nos transformarão em outros Cristos, transpassando para nós o seu espírito, os seus sentimentos, as suas virtudes. Voltaremos logo a este ponto.

d) Se temos a infelicidade de perder a vida na graça pelo pecado mortal, o sacramento da Penitência lava as nossas faltas no sangue de Jesus Cristo, cuja virtude nos é aplicada pela absolvição, contato que estejamos sinceramente contritos e sinceramente decididos a romper com o pecado, como abaixo explicaremos.  

e) Quando a morte nos vem bater a porta, necessitamos de ser confortados no meio das angustias e temores que nos inspiram as faltas passadas, as enfermidades presentes e os juízos de Deus. A Extrema Unção, derramando o óleo santo em nossos sentidos principais, infunde-nos na alma uma graça de alívio e de conforto espiritual, que nos livra das relíquias do pecado, reanima a confiança, e nos arma contra os supremos assaltos do inimigo, fazendo-nos participar dos sentimentos de São Paulo que, depois de ter combatido o bom combate, se alegrava com o pensamento da coroa, que o esperava. Importa, pois, pedir este sacramento a tempo, logo que se sente gravemente enfermo, para ele produzir todos os seus efeitos, e até, se Deus julgar conveniente, nos restituir a saúde; e é uma crueldade que os que assistem ao doente lhe dissimulem a gravidade do seu estado e dilatem para o último instante a recepção de um sacramento tão consolador. 
Este sacramentos bastam para santificar o indivíduo na sua vida privada; há mais dois, para o santificarem nas suas relações com a sociedade: a Ordem que dá a Igreja dignos ministros, e o Matrimônio que santifica a família. 

f) A Ordem dá aos ministro da Igreja não somente poderes maravilhosos de consagrar a Eucaristia, administrar os sacramentos e pregar a doutrina do evangélica, mas a graça de os exercer santamente, em particular um amor ardente para com o Deus da Eucaristia e para com as almas, com a vontade firme de se imolar e consumir completamente por estas duas nobres causas. A que grau de santidade devem eles tender, di-lo-emos mais adiante. 

g) Para santificar a família, célula primordial da sociedade, dá o sacramento do Matrimônio aos esposos as graças de que tão urgentemente precisam, a graça da fidelidade absoluta e constante, fidelidade tão dificultosa ao coração inconstante do homem; a graça de respeitarem a santidade do tálamo conjugal, a despeito das solicitação contrárias  da concupiscência, a graça de se consagrarem com dedicação inevitável a educação cristã dos filhos. 

Assim que, para cada circunstância importante da vida, para cada dever individual e social, é nos conferido um capital maravilhoso de graça santificante; e para que esta graça não fique inativa, cada sacramentos nos dá direto a graças atuais, que virão solicitar-nos à prática das virtudes que teremos que exercitar, e dar-nos energias espirituais para o fazer. A nós cumpre-nos corresponder a essas graças por meio de disposições quanto possíveis perfeitas.

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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