Teologia Ascética e Mística: O Remédio contra a Soberba

Reconhecer que todos os bens provém
da bondade divina.

O Remédio é:

Referir tudo a Deus, reconhecendo que ele é o autor de todo bem e que, sendo o princípio de todas as nossas ações, deve ser seu último fim. Esse é o remédio que sugere São Paulo: "Quid habes quod non acceperis? Si autem accepisti, quid gloriaris quasinon acceperis? Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebestes, porque te glorias como se não tivesse recebido?" Donde se conclui que todas as nossas ações devem tender a glória de Deus. "Sive manducalis, sive bibitis, sive aliud qui facitis, omnia in glogia Dei facite"; Quer comais e quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo pela glória de Deus". E para lhes dar maior valor, tenhamos cuidado em as fazer em nome, na virtude de Jesus Cisto: Omne quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domine Jesu Christ, gratias agentes Deo et Patri, per Ipsum: tudo o que fazeis por palavras ou por obra, fazei-o em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo; dando por ele graças ao Pai.

Como porém, a nossa natureza nos leva constantemente a buscar-nos a nós mesmo, é necessário, para reagir contra esta tendência, lembrar-nos de que nós mesmos não somos mais que nada e pecado. Há em nós sem dúvida,boas qualidades naturais e sobrenaturais, que soberanamente devemos estimar e cultivar; mas, como estas qualidades vem de Deus, não é porventura a Deus que por causa delas que devemos glorificar? Quando um artista saiu com uma obra-prima a quem devemos elogios? a tela ou ao seu autor?

Ora, de nós mesmos, não temos mais que o nada; "Eis o que éramos de toda a eternidade: e o ser de que Deus nos revestiu, não é de nós, é de Deus: e, posto que nos tenha sido dado, não cessa contudo de ser ainda dom de Deus,pelo qual quer ser honrado.

Mai ainda: de nós mesmos somos pecado, neste sentido, que pela concupiscência de tal modo que, segundo Santo Agostinho (Confissões); se não cometermos certos pecados, é a graça de Deus que o devemos: "Gratiae tuae deputo et quaecumque non feci mala. Qui enim non facere potui, qui etiam gratuitum facinus amavi?" O que M. Oliver explica assim: "O que vos posso dizer a esse respeito, é que não há espécie de pecado que se possa conceber, não há imperfeição e desordem, não há erro nem confusão, de que a carne não esteja repleta: de tal sorte que não há espécie de leviandade, não há espécie de loucura, nem de insensatez que a carne não fosse capaz de cometer em toda a terra". É certo que a nossa natureza não está totalmente corrompida, como pretendia Lutero: pode fazer com o concurso de Deus, natural e sobrenatural, algum bem, e até faz muito bem, como se vê nos santos; mas como Deus fica sendo a sua causa primeira e principal, é a Ele que por isso são devidas as graças.

Concluamos pois, com Bossuet: "Não presumais de vós mesmo, porque isso é princípio de todo o pecado... Não desejeis a glória dos homens, porque tereis recebido a vossa recompensa, e não tereis, e não tereis que esperar senão verdadeiros suplícios. Não vos glorifiqueis a vós mesmos: pois tudo quanto vos atribuís nas nas vossas boas obras, roubai-lo a Deus que é o seu autor, e ponde-vos em seu lugar. Não sacudais o jogo da disciplina do Senhor, não julgais dentro de vós mesmos, como um soberbo orgulhoso: Não servirei; porque senão servia a justiça

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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