sexta-feira, 27 de abril de 2012

Teologia Ascética e Mística: Da Parte da Santíssima Virgem, dos santos e dos anjos na vida cristã (Parte II)

É igualmente no dia da Encarnação que Maria é constituída Mãe dos homens. Jesus como dissemos é o chefe da humanidade regenerada, a cabeça de um corpo místico de que nós somos os membros. Ora Maria, Mãe do Salvador, gera-o todo inteiramente e, por conseguinte, como chefe de toda a humanidade como cabeça do corpo místico. Gera também, pois todos os seus membros, todos aqueles que estão neles incorporados, todos os regenerados ou aqueles que são chamados a sê-lo. E assim, ao ser constituída Mãe de Jesus segundo a carne, é constituída ao mesmo tempo, Mãe dos seus membros segundo o espírito. A cena do Calvário não fará senão confirmar esta verdade: no próprio momento em que a nossa redenção vai ser consumada pela morte do Salvador, diz este a Maria, mostrando-lhe São João e nele todos os seus discípulos presentes ou futuros: Eis aí o teu filho; e ao próprio São João: Eis aí a tua Mãe. Era para declara, segundo uma tradição que remonta até Orígenes, que todos os regenerados eram filhos espirituais de Maria.

É deste duplo sentido de Mãe de Deus e Mãe dos homens que deriva o papel que Maria desempenha em nossa vida espiritual.

Maria causa Meritória da graça - Vimos que Jesus Nosso Senhor é a causa meritória principal e em sentido próprio de todas as graças que vivemos. Maria a sua associada na sua obra de santificação, Mereceu secundariamente, e somente de côngruo, com mérito de conveniência, todas as mesmas graças. Não as mereceu senão secundariamente, isto é, em dependência de seu Filho, e porque ele mesmo lhe conferiu o direito de merecer por nós. Mereceu-as, primeiro, no dia da Encarnação, no momento em que pronunciou o seu fiat. É que realmente a Encarnação do Verbo é a redenção começada; cooperar pois, na Encarnação é cooperar na Redenção, nas graças que delas serão frutos, e por conseguinte, em nossa salvação e Santificação.

E depois de todo o decurso de sua vida, Maria que cuja a vontade é em tudo conforme a vontade de Deus, como de seu Filho assumiu a obra redentora. É ela quem educa a Jesus, que sustenta e prepara para a imolação a vítima do Calvário; associada as suas alegrias como nas suas provações, aos seus humildes trabalhos na casa de Nazaré, às suas virtudes, Ela se unirá, por uma compaixão generosíssima, a Paixão e Morte de seu Filho, repetindo o seu fiat no pé da Cruz, e consentindo na imolação daquele que ama indizivelmente mais que a si mesma. E seu coração amante será transpassado por uma espada de dor "tuam ipsius animam pertransibit glaudius" (Lc 2,35). Que merecimentos ela adquiriu por esta imolação perfeita.

E continua a aumentá-los por este longo martírio que padece depois da Ascenção de seu Filho ao Céu; privada da presença daquele que fazia a sua felicidade suspirando ardentemente por aquele momento, em que poderá ser unida para sempre, e aceitando amorosamente esta provação, para fazer a vontade de Deus e contribuir para edificar a Igreja nascente, Maria acumula para todos nós inumeráveis merecimentos. Os seus atos são tanto mais meritórios quanto mais perfeita  é a pureza de intenção com que são praticados. "Magnificat anima mea Dominum", mais intenso o fervor com que cumpre em sua integridade a vontade de Deus, "Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tum", mais estreita a união com Jesus, fonte de todo o mérito.

É certo que estes merecimentos eram antes de tudo para ela mesma e aumentavam o seu capital de graça e os seus direitos a glória; mas em virtude da parte que tomava na obra redentora, Maria merecia também de côngruo para todos, e se é cheia de graça pra si mesma, deixa transbordar esta graça sobre nós, segundo a expressão de São Bernardo: Plena sibi, nobis superplena et supereffluens (Sermão da Assunção). 

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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