Teologia Ascética e Mística: União entre nossa alma e Deus


Do que dissemos na postagem anterior acerca da habitação da Santíssima Trindade em nossa alma, resulta que entre nós e o hóspede divino existe uma união moral muito íntima e santificante.


Mas não haverá alguma coisa mais, algo de físico nesta união?


a) Dir-se-ia que as comparações empregadas pelos Santos Padres parecem indicá-lo.


1º. Um grande número dentre eles dizem nos que a união de Deus com a alma é semelhante a da alma e do corpo; "Há duas vidas em nós, diz Santo Agostinho, a vida do corpo e da alma; a vida do corpo é a alma, a vida da alma é Deus.: "sicut vita corporis anima, sic vita anime Deus". Tudo isto evidentemente, não são mais que analogias; façamos por destrinçar a verdade que elas contêm. A união entre o corpo e alma é substancial, a tal ponto que não formam senão uma única e mesma natureza, uma única e mesma pessoa. O mesmo se não dá na união entre a nossa alma e Deus: nós conservamos sempre a nossa natureza e personalidade, e assim ficamos essencialmente distintos da divindade. Mas, assim como a alma dá ao corpo vida de que este goza, assim Deus, sem ser a forma da alma, lhe dá a sua vida sobrenatural, a vida não igual, mas verdadeira e formalmente semelhante à sua; e esta vida constitui uma união realíssima entre a nossa alma e Deus. Supõe uma realidade concreta que Deus nos comunica e serve de traço de união entre Ele e nós. É certo que esta nova relação nada acrescenta a Deus, mas aperfeiçoa a nossa alma e torna-a deiforme; o Espírito Santo é assim, não causa formal, senão causa eficiente e exemplar da nossa santificação.





Esta mesma verdade se deduz da comparação feita por alguns autores entre a união hipostática e a união da nossa alma a Deus. Não há dúvida de que a diferença entre ambas é essencial: a união hipostática é substancial e pessoal, pois que a natureza divina e a natureza humana, se bem que perfeitamente distintas, não formam em Jesus Cristo mais que uma única e mesma pessoa, enquanto a união da alma com Deus pela graça nos deixa a nossa personalidade própria, essencialmente distinta da personalidade divina, e não nos une a Deus senão dum modo acidental. Faz-se, efetivamente, essa união, por intermédio da graça santificante, "acidente" acrescentado à substância da alma; ora, na linguagem escolástica, a união dum acidente e duma substância chama-se união de substâncias a substância.



Nem por isso é menos verdade que a união da alma com Deus se pode bem dizer uma união de substância a substância, que o homem e Deus estão em contato tão íntimo como o ferro e o fogo que o envolve e o penetra, como o cristal e a luz. Para tudo resumir numa palavra, a união hipostática faz um homem-Deus, a união da graça faz homens divinizados; e, assim como as ações de Cristo são divino-humanas ou teândricas, assim as do justo são deiformes, feitas em comum por Deus e por nós, e, por este título, meritórias da vida eterna, que não é outra coisa senão uma união imediata com a divindade. Pode ser, pois, com o padre de Smedit disse: "que a união hipostática é o tipo da nossa união com Deus pela graça e que esta imagem mais perfeita daquela, que a mais simples criatura seja dado a reproduzir em si".



Concluamos com o mesmo autor, que a união da graça não é puramente moral, senão que encerra um elemento físico que nos permite chamá-la físico-moral: "A natureza divina é verdadeiramente e no seu próprio ser unida a substância da alma por um lado especial, de maneira que a alma justa possui em si a natureza divina, como se lhe pertencesse, e, por conseguinte, possui um caráter divino, um,a perfeição de ordem divina, infinitamente superior a tudo quanto pode haver de perfeição natural em qualquer criatura existente ou possível".

Se postas de partes as comparações, estudando o lado doutrinal do problema, chegamos a mesma conclusão: 1) No céu, os escolhidos vêem a Deus face a face, sem intermédio; a própria essência divina é que desempenha o papel de espécie impressa: "in visione, qua Deus per essencia videbitur ipsa divina essentia erit quasi forma intellectus quo intelliget". Há, pois, entre eles a divindade uma união verdadeira, real, que se pode chamar física, pois que Deus não pode ser visto e possuído se não estiver presente ao espírito dos bem-aventurados pela sua essência, e não pode ser amado, se não estiver efetivamente unido à sua vontade como objeto de amor: "amor est magis unitivus quam cognitio". Ora a graça não é outra coisa senão um começo, um germe da glória: "gratia nihil est quam inchoatio gloriae in nobis".

Portanto a união começa na terra entre a nossa alma e Deus pela graça é, afinal, do mesmo gênero que a da glória, real, e em certo sentido física, como ela. Assim conclui o P. Froget no seu belo livro de L'Habitation du Saint-Esprit (p. 159), apoiando-se em numerosos textos de Santo Tomás: "Deus está, pois, real, física e substancialmente presente no cristão que possui a graça; e não é simples presença material, é verdadeira posse, acompanhada dum princípio de fruição".

Esta mesma conclusão deriva ainda da análise da graça em si mesma. Segundo a doutrina do Doutor Angélico, baseada nos próprios textos das Sagradas Escrituras que citamos, a graça habitual é-nos dada para gozarmos não somente dos dons divinos, mas também das mesmas pessoas divinas: "Per donum gratiae gratum facientis perficitur creatura rationalis ad hoc libere non solum ipso dono creato utatur, sed ut ipsa divina persona fruatur." Ora, acrescenta um dos discípulos de São Boaventura, para se gozar duma coisa, requer-se a presença desse objetos, e por, conseguinte, para gozar do Espírito Santo é necessária a sua presença do dom criado é real e física, não deverá ser também do mesmo gênero a do Espírito Santo?

Assim, pois, tanto as deduções da fé, como as comparações dos santos padres, autorizam-nos a dizer que a união de nossa alma com Deus pela graça não é somente moral; tão pouco pode-se qualificar de substancial em sentido próprio, mas a tal ponto é real que se pode chamar físico-moral. Como ao mesmo tempo ela fica velada e obscura, e como é progressiva (neste sentido em que percebemos tanto melhor os seus efeitos quanto mais cultivamos a fé e os dons do Espírito Santo), as almas fervorosas, que aspiram a união divina, sentem-se vivamente estimuladas a avançar cada dia na prática das virtudes e dos dons.


(Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Ed. Apostolado da Imprensa - 1961 - 6ª edição)

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