Teologia Ascética e Mística: Da parte de Deus na vida Cristã (Parte II)

Na ordem da natureza, Deus está em nós como Criador e Soberano Senhor, e nós não somos senão seus servos, propriedade e coisa sua. Mas na ordem da graça, dá-se-nos Ele como nosso Pai, e nós somos seus filhos adotivos: privilégio maravilhoso que é a base da nossa vida sobrenatural. É o que repetem constantemente São Paulo e São João: "Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus"(Rom 8,15-16). Deus adota-nos, conseguintemente, por seus filhos, e de um modo muito mais perfeito que os homens o fazem pela adoção legal. Estes podem, sem dúvida, muito bem transmitir aos filhos adotivos o nome e os bens, mas não o sangue e a vida. "Adoção legal, diz com razão o Cardeal Mercier (http://www.hottopos.com/videtur25/ruy.htm) é uma ficção. O filho adotado é considerado pelos pais adotivos como se fosse seu filho e recebem a herança à qual houvera tido direito o fruto de sua união; a sociedade reconhece esta ficção e sanciona os seus efeitos; contudo o objeto da ficção não se transforma em realidade. Deus outorga aqueles que têm fé no seu Verbo a filiação divina, diz São João: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu"(I Jo 3, 1).
 

É certo que esta vida divina, não é em nós mais que uma participação, "consortes", uma semelhança, uma assimilação que faz de nós, não deuses, mas seres deiformes. Mas nem por isso é menos verdade que é, não uma ficção, se não uma realidade, uma vida nova, não igual, senão semelhante à de Deus, e que, segundo o testemunho dos nossos Livros Santos, supões uma nova geração ou regeneração: "Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus"(João 3, 5)... "E, não por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo..."(Tit 3, 5) ..."Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia ele nos fez renascer pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança..."(1Pedr 1, 3). Todas estas expressões mostram que a nossa adoção não é puramente nominal, senão verdadeira e real, se bem muito distinta da filiação do Verbo de Deus Encarnado. É por isso que, de pleno direito somos constituídos herdeiros do reino celeste, co-herdeiros daquele que é nosso irmão mais velho: "E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados."(Rom 8, 17,20). Devemos repetir continuamente as palavras do Apóstolo São João: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu"(1Jo 3, 1).

Deus terá para conosco a dedicação, a ternura dum Pai. Ele mesmo se compara à mãe que jamais pode esquecer o seu filhinho: "Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca"(Isa 49, 15). Oh! Sem dúvida, Ele o mostrou de sobra, pois que, para salvar os seus filhos perdidos, não hesitou em dar e sacrificar o seu filho Unigênito: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna"(Jo 3, 16). É este mesmo amor que o leva a dar-se todo, desde agora de modo habitual, a seus filhos adotivos, habitando em seus corações: "Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada"(Jo 14, 23). Habita, pois, em nós como Pai amantíssimo e dedicadíssimo.

 (Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Ed. Apostolado da Imprensa - 1961 - 6ª edição)

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