quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Catecismo Romano: "Desceu aos infernos, e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos" (Parte III)

Vem agora a segunda cláusula do presente artigo, conforme nos ensina o Apóstolo: "Lembra-te de que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos"(2Tim 2,8). Não há dúvida, esta ordem dada a Timóteo se estende a todos os mais que tenham encargo de almas.

O artigo quer dizer o seguinte: Depois que Cristo Nosso Senhor redeu o espírito na Cruz, na sexta-feira na hora nona, foi sepultado na tarde deste mesmo dia, pelos seus discípulos.

Com a permissão do procurador Pilatos, haviam descido da cruz o corpo do Senhor, e depositado num sepulcro, que ficava num jardim das imediações.

No terceiro dia depois da morte, que era um domingo, pela madrugada, sua alma se uniu novamente ao corpo. Deste modo, aquele que por três dias estivera morto, tornou à vida, com a morte, havia deixado, e ressuscitou.

O termo "ressurreição" não é todavia só para se tomar no sentido de que Cristo foi ressuscitado dos mortos, de modo comum a muitos outros; mas que ressurgiu por sua própria virtude e poder.

Esta maneira de ressurgir, própria e singular, só a ele competia, pois que não está nas leis da natureza, nem homem algum teve jamais o poder de passar da morte para a vida, por própria virtude. Isto cabe unicamente ao supremo poder de Deus, como se depreende das palavras do Apóstolo: "Embora fosse crucificado na fraqueza, vive todavia pelo poder de Deus"(2Cor 13,4).

Esta virtude divina nunca se separou do corpo de Cristo no sepulcro, nem de sua alma, quando descera aos infernos. De um lado, estava presente no corpo, pelo que este podia unir-se novamente à alma; de outro lado, estava presente na alma, pelo que esta podia voltar outra vez ao corpo. Nestas condições, foi-lhe possível tornar à vida por sua própria virtude, e ressurgir dos mortos.

Cheio do Espírito de Deus, Davi já havia predito com estas palavras:"Fizeram-no triunfar: Sua destra e seu santo braço" (Sal 97,2). Além disso, o próprio Nosso Senhor o reafirmou com o divino testemunho de sua boca: "Largo minha vida, para a tomar de novo. Tenho o poder de tomá-la novamente" (Jo 10,17-18). Corroborando a verdade de sua doutrina, dissera também aos judeus: "Arrasai este templo, e em três dias o tornarei a construir" (Jo 2,19-21).

Na verdade, os judeus entenderam tal linguagem com relação ao templo de Jerusalém em sua magnífica construção de pedra, mas ele falava do templo do seu corpo, como no mesmo lugar declaram as palavras das Escrituras.

Se lemos as vezes, nas Escrituras, que Cristo Nosso Senhor foi ressuscitado pelo Pai, estas passagens devem se aplicar a natureza humana. Analogicamente, devem aplicar-se a sua natureza divina as passagens que dizem ter ressuscitado por própria virtude.

E também um apanágio de Cristo ter sido o primeiro de todos os homens a receber o benefício divino da ressurreição. Por conseguinte, nas Escrituras é chamado não só "Primogênito dentre os mortos", como também "Primogênito dos mortos".

O Apóstolo declara que Cristo ressurgiu dos mortos como primícias dos que dormem; porquanto por um homem veio a morte, assim também por um homem veio a ressurreição dos mortos. E como todos sofrem a morte de Adão, assim todos terão vida em Cristo. Cada qual, porém, conforme sua ordem. Cristo como primeiro de todos, em seguida os que pertencem a Cristo (Rom 8,34).

Estas palavras devem entender-se de uma ressurreição perfeita, pela qual despertamos para uma vida imortal, ficando abolida toda a necessidade de morrer. Ora, neste sentido cabe a Cristo Nosso Senhor em primeiro lugar.
Se falarmos, porém, de ressurreição como regresso à vida, como necessidade de morrer uma segunda vez, muitos outros houve que, antes de Cristo, foram ressuscitado dos mortos. Todos porém, tornaram a viver, sob a condição de morrerem novamente.

Cristo Nosso Senhor, ao contrário, ressurgiu de tal maneira que, vencendo e subjugando a morte, já não pode morrer. Confirma este fato a evidência daquela passagem: "Ressuscitado dos mortos, Cristo já não morre. A morte já não lhe tem poder" (Rom 6,9).

(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - 1962 - Ed. Vozes)

Nenhum comentário: