COMENTÁRIO DOMINICAL: A GRANDE SEMANA CHEGOU! BENEDICTUS QUI VENITE IN NOMINE DOMINE!

 


"E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!"

Enfim chegamos a Semana Santa, após cinco semanas da quaresma voltados ao jejum, abstinência, orações e atos de caridade (esmola), nos aproximamos da celebração do ápice do ano litúrgico. 

Santa, Grande ou Maior são alguns dos adjetivos utilizados pelos cristãos para designar a semana mais importante da cristandade no ano litúrgico. A semana Santa, mais popularmente assim conhecida, tem seu início com a celebração do Domingo de Ramos e encerra-se com a vigília Pascal no Sábado Santo. Chama-se de "Santa" por que Cristo a santificou derramando seu santíssimo Sangue.

Ademais, cabe ressaltar que santo é sinônimo de consagrado, justificado ou separado. Os texto sagrados se referem a todos os objetos dedicados ao culto divino, atos litúrgicos, vestimentas litúrgicas, locais de culto a Deus como santos:

"Colocarás o véu debaixo dos colchetes, e é ali, atrás do véu, que colocarás a arca da aliança. Esse véu servirá para separar o ‘santo’ do ‘santo dos santos’. (Êxodo 26, 33)"
 
"Tomarás o carneiro de inauguração e farás cozer a sua carne em um lugar santo. (Êxodo 29, 31)"

"O que sobrar da oblação será para Aarão e seus filhos. É o que há de mais santo entre os sacrifícios feitos pelo fogo ao Senhor. (Levítico 2, 3)"

"Para o interior do Santo dos Santos, mandou esculpir dois querubins e os revestiu de ouro. (II Crônicas 3, 10)"
 
"e um santo anjo do Senhor, Rafael, foi enviado para curar Tobit e Sara, cujas preces tinham sido simultaneamente dirigidas ao Senhor.* (Tobias 3, 25)"

"Salmo de Asaf. Senhor, povos infiéis invadiram a vossa herança, profanaram o vosso santo templo. De Jerusalém fizeram um montão de ruínas.* (Salmos 78, 1)"
 
"Se sobrar ainda da carne da vítima de inauguração ou do pão até o dia seguinte, queimarás o resto: não será comido, porque é uma coisa santa. (Êxodo 29, 34)"

"Tomarás o óleo da unção e ungirás com ele o tabernáculo com tudo o que ele contém; tu o consagrarás com todo o seu mobiliário, para que ele se torne uma coisa santa. (Êxodo 40, 9)"
 
"Todo homem da descendência de Aarão, atacado de lepra ou de gonorreia, não comerá coisa santa até a sua purificação. O mesmo será para aquele que tiver tocado uma pessoa contaminada por um cadáver, para aquele que tiver um fluxo seminal, (Levítico 22, 4)"

Poderíamos citar inúmeras outras passagens em que Deus nos afirma que tudo o que lhe é consagrado se torna santo. Portanto, nada mais que justo designar como Santa a semana em que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo santificou a preço de seu sangue derramado no patíbulo da Santa Cruz.

O Domingo de Ramos abre as festividades da Grande Semana, pois trata-se de um evento da messianidade e realeza de Cristo, com inicio da Paixão do Divino Redentor. Se por um lado iniciamos a Paixão do Senhor por aclamações festivas de "Hosana ao filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor" (Salmo 118), de outro nos juntaremos ao infames do Sinédrio e dos demais judeus que gritavam "Crucifica-o", na Sexta-feira da Paixão (Mateus 27,22). 

Equivocam-se os pensam que a celebração da memória da Paixão de Nosso Senhor se dá apenas na Sexta-feira Santa. A mesma tem seu início já no Domingo de Ramos, com a leitura do Evangelho da Paixão. 

Inicialmente, no relato dos evangelistas, vemos Jesus pedir aos seus discípulos pegar um jumentinho emprestado para sua entrada em Jerusalém, que Bento XVI vai designar como a evocação do direito real¹. Jesus fará como fez Salomão, filho de Davi, subirá a Jerusalém montado em um potro para ser finalmente coroado, mas não com uma coroa real da casa de Davi, mas com a coroa de espinhos oferecida pelos infames pecadores.

A liturgia inicia com a benção dos ramos, que se originou na Igreja de Roma no século IX, seguida da leitura do Evangelho que descreve a entrada triunfal e messiânica de Cristo em Jerusalém. Subsegue-se a procissão dos Ramos originária da Igreja de Jerusalém no século IV. Por fim, após a acomodação dos fiéis e do celebrante na Igreja, temos o rito da missa da Paixão, com leituras, evangelho e orações próprias. 

E qual seria o real motivo de reviver todos esse fatos ocorridos há quase dois mil anos atrás? A resposta para essa questão se encontra no livro do Êxodo com a instituição da liturgia da Páscoa pelo próprio Deus: 

"Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o com uma festa em honra do Senhor: fareis isso de geração em geração, pois é uma institui­ção perpétua". (Êxodo 12, 14)

Portanto, se a instituição da Páscoa judaica, que apenas prefigura a Páscoa eterna e definitiva do Cristo, nada mais coerente que conservar a memória do grande dia da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor, que nos trouxe vida eterna redimindo o gênero humano de suas paixões e condenações eternas.

Entretanto, passados mais de dois mil anos, após as longas perseguições da era Romana, as guerras medievais e as revoluções luteranas, francesas, bolcheviques e de Sourbone, vivemos a era da revolução das redes e Big Techs. 

A tolice humana é a mesma que levou o racha do cristianismo por Martinho Lutero, Calvino, Henrique VIII e tantos outros. O número de seitas que não possuem um consenso quanto as interpretações das Escrituras, que vivem em disputa por dizimistas através de espetáculos mirabolantes e patéticos do neopentecostalismo, tem levado uma quantidade elevada de indivíduos a rejeitarem o cristianismo e até mesmo a serem hostis as propostas do evangelho.

A Igreja liberal também tem suas mazelas. A falta de discernimento na escolha de candidatos ao sacerdócio tem permitido a ordenação de homens de poucas virtudes ou de vícios horrendos e até criminosos. A desconstrução da vida religiosa duramente criada por seus fundadores, tem esvaziados os conventos e seminários de congregações que buscam desesperadamente sobreviver ante a ausência de renovação de seus quadros.

Enquanto a Igreja cresce na África, Ásia e nos Estados Unidos, despenca na América Latina, Europa e Canadá. No Brasil, a queda acentuada de católicos é visível ante a indiferença de um clero arrogante e resistente em reconhecer os desastres de um catolicismo liberal. Nesse interim, não devemos ver um quadro de reversão dessa crise tão cedo.

A sociedade ocidental envelhece de forma acelerada. Dessa forma, perguntamo-nos se em um futuro próximo teremos ainda fiéis que mantenham as memorias dos grandes dias da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, mantendo nossas belíssimas tradições e costumes. 

As cidades que outrora eram majoritariamente protestantes na Europa, já se tornaram em sua maioria ateias ou sem religião confessional. Nos Estados Unidos, uma recente pesquisa revelou que para os americanos o dinheiro é mais importante que a religião. Diante desses quadros devemos manter o espírito combativo dessas seitas e ideologias que estão levando o ocidente a sua ruína.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo ao qual celebramos hoje como nosso Rei e Messias, ilumine as consciências de nossas lideranças políticas e religiosas ante ao abismo para qual as suas ideias liberais estão nos levando. Que o mesmo Senhor nos livre da tibieza e das mazelas do liberalismo, conservando-nos o espírito combativo e fiel de seus mandamentos, como fizeram os grandes Santos da Igreja nesses dois mil anos de cristandade.  

Boa Semana Santa a todos!

1 - RATZINGER, Josefh. Jesus de Nazaré: Da entrada triunfal em Jerusalém até a Ressurreição. [ Tradução: Bruno Bastos Lins] 2ª Edição  - São Paulo: Planeta, 2016.

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