terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Preparação para a morte: Das penas do inferno

Et ibunt in supplicium aeternum. E irão estes ao suplício eterno (Mt 25,46).

PONTO I

O pecador comete dois males quando peca: aparta-se de Deus, Sumo Bem, e se entrega às criaturas. “Dois males fez meu povo: abandonaram-me a mim, que sou fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter a água” (Jr 2,13). Em vista de o pecador se ter dado às criaturas com ofensa a Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: esta é a pena do sentido. Como, porém, sua maior culpa, na qual consiste a maldade do pecado, é a separação de Deus, o maior suplício do inferno é a pena do dano ou da privação da visão de Deus, perda irreparável.

Consideremos, em primeiro lugar, a pena do sentido. É de fé que existe inferno. No centro da terra se encontra esse cárcere, destinado ao castigo dos que se revoltaram contra Deus. Que é, pois, o inferno? O lugar de tormentos (Lc 16,28), como o chamou o mau rico; lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado hão de ter o seu castigo próprio, e onde aquele sentido que mais tiver servido para ofender a Deus mais acentuadamente será atormentado (Sb 11,17; Ap 18,7). A vista padecerá o tormento das trevas (Jó 10,21). Digno de profunda compaixão seria um infeliz encerrado em tenebroso e acanhado calabouço, durante quarenta ou cinqüenta anos de sua vida. Pois o inferno é cárcere fechado por completo e escuro, onde nunca penetrará raio de sol nem qualquer outra luz (Sl 48,20).

O fogo que aqui na terra ilumina, não será luminoso no inferno.

“Voz do Senhor, que despede chamas de fogo” (Sl 28,7). Explica São Basílio que o Senhor separará do fogo a luz; de modo que estas chamas arderão sem iluminar; o que Santo Alberto Magno exprime mais brevemente nestes termos: “Separará do calor o resplendor”. O fumo sairá dessa fogueira e formará a espessa nuvem tenebrosa que, como diz São Judas, cegará os olhos dos réprobos (Jd 13). Haverá ali apenas a claridade precisa para aumentar os tormentos. Uma sinistra claridade que permite ver a fealdade dos condenados e dos demônios, assim como o aspecto horrendo que estes tomarão para causarem mais horror.
O olfato padecerá o seu tormento próprio. Seria insuportável se nos metêssemos num quarto acanhado, onde jazesse um cadáver em putrefação. O condenado deve ficar sempre entre milhões de réprobos, vivos para a pena, mas cadáveres hediondos quanto à pestilência que exalam (Is 34,3). Disse São Boaventura que, se o corpo de um condenado saísse do inferno, bastaria ele só para produzir uma infecção em conseqüência da qual morreriam todos os homens do mundo... E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: “Se for ao inferno, não irei sozinho...” Infelizes! Quanto maior for o número de réprobos ali, tantos maiores serão os sofrimentos de cada um. “Ali — diz São Tomás — a companhia de outros desgraçados não alivia; antes aumenta a desventura geral”. Muito mais sofrerão, sem dúvida, pela fetidez asquerosa, pelos gritos daquela multidão desesperada, e pelo aperto em que se acharão amontoados e comprimidos os réprobos, à semelhança de ovelhas em tempo de inverno (Sl 48,15), ou como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus (Ap 19,15). E assim mesmo padecerão o tormento da imobilidade (Êx 15,16). Da maneira como o condenado cair no inferno, assim há de permanecer imóvel, sem que lhe seja dado mudar de posição, nem mexer mão nem pé, enquanto Deus for Deus.

O ouvido será atormentado com os contínuos gritos aflitivos daqueles pobres desesperados, e pelo barulho horroroso que, sem cessar, os demônios provocam (Jó 15,21). Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o contínuo gemido de um doente, o choro de uma criança ou o ladrar de um cão... Infelizes réprobos, que são obrigados a ou-vir, por toda a eternidade, os gritos pavorosos de to-dos os condenados!... A gula será castigada com a fome devoradora... (Sl 58,15) Entretanto, não haverá ali nem uma migalha de pão. O condenado sofrerá sede abrasadora, que não se apagaria com toda a água do mar. Mas não se lhe dará uma só gota. Uma só gota d’água pedia o rico avarento, e não a obteve, nem a obterá jamais.

AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés quem tão pouco caso fez da vossa graça e dos vossos casti-gos... Desgraçado de mim, se vós, meu Senhor, não tivésseis tido misericórdia! Há muitos anos que já estaria naquela fornalha infecta, onde ardem tantos pecadores como eu. Ah, meu Redentor, como poderia eu, no futuro, pensar em vos ofender? Não, isto não acontecerá, Jesus de minha vida; prefiro antes a mor-te.

Já que me tirastes do lodaçal dos meus pecados e tão amorosamente me convidais a amar-vos, fazei que empregue agora todo o tempo em vos servir. Com quanto ardor, desejariam os condenados, um dia, uma hora desse tempo que a mim concedeis! E que farei eu? continuarei a malbaratá-lo em coisas que vos desagradem?... Não, meu Jesus, não o permitais, pelos merecimentos do vosso preciosíssimo sangue, que até agora me preservou do inferno. Amo-vos, soberano Bem, e, porque vos amo, pesa-me de vos ter ofendido. Proponho não tornar a ofender-vos, mas amar-vos sempre.

Maria Santíssima, minha Rainha e minha Mãe, rogai a Jesus por mim, e alcançai-me os dons da perseverança e do divino amor.


V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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