terça-feira, 6 de novembro de 2012

Preparação para a morte: Do juízo particular


Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi. Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo (2Cor 5,10).

PONTO I

Consideremos o comparecimento do réu, a acusação, o exame e a sentença deste juízo. Primeira-mente, quanto ao comparecimento da alma perante o juiz, dizem comumente os teólogos que o juízo particular se efetua no mesmo instante em que o homem expira, que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo é julgada por Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual não delega seu poder, mas vem ele mesmo julgar esta causa. “Na hora que não cuidais, virá o Filho do homem” (Lc 12,40).

“Virá com amor para os fiéis — disse Santo Agostinho — e com terror para os ímpios”. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez o seu Redentor, vir também a indignação divina! “Quem poderá subsistir ante a face de sua indignação?” (Na 1,6) Meditando nisto, o Padre Luís de la Puente estremecia de tal modo, que a cela em que se achava tremia com ele. O venerável Padre Juvenal Ancina se converteu ao ouvir cantar o Dies irae, porque, considerando o terror que se apodera da alma quando se apresentar em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. A indignação do juiz será prenúncio de eterna condenação (Pr 16,14); e fará sofrer mais as almas que as próprias penas do inferno, segundo afirma São Bernardo.

Têm-se visto criminosos banhados em copioso suor frio na presença dos juízes terrestres. Pison, em traje de réu, comparecendo no senado, sentiu tamanha confusão e vergonha, que ali mesmo se deu a morte. Que aflição profunda sente um filho ou um bom vassalo quando vê seu pai ou seu amo grave-mente indignado!... Mágoa muito maior sentirá a alma quando vir indignado a Jesus Cristo, a quem desprezou! (Jo 19,37). Irritado e implacável, então, se lhe apresentará esse Cordeiro divino, que foi no mundo tão paciente e amoroso, e a alma, sem esperança, clamará aos montes que caiam sobre ela e a ocultem à indignação de Deus (Ap 6,16). Falando do juízo, disse São Lucas: “Então verão o Filho do homem” (Lc 21,27). Ver o seu juiz em forma humana aumentará a dor dos pecadores; porque a presença daquele Homem, que morreu para salvá-los, lhes recordará vivamente a ingratidão com que o ofenderam.

Depois da gloriosa Ascensão do Senhor, os anjos disseram aos discípulos: “Este Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu” (At 1,11). Virá, pois, o Salvador a julgar-nos, ostentando aquelas mesmas chagas sagradas que tinha quando deixou a terra. “Grande alegria para os que contemplam, grande temor para os que esperam” — Exclama Ruperto.

Essas benditas chagas consolarão os justos e in-fundirão terror aos pecadores. Quando José disse a seus irmãos: “Eu sou José, a quem vendestes”, ficaram eles — diz a Escritura — sem fala e imóveis de terror (Gn 45,3). Que responderá o pecador a Jesus Cristo? Acaso, terá coragem de lhe pedir misericórdia, quando antes dera prova do muito que desprezou essa mesma clemência? Que fará, pois — interroga Santo Agostinho — para onde fugirá quando vir o juiz indignado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecadores que o acusam, ao outro o demônio, disposto a executar a sentença, e dentro de si mesmo a consciência que remorde e castiga?

AFETOS E SÚPLICAS

Ó meu Jesus! assim quero sempre chamar-vos, pois vosso nome me consola e anima, recordando-me que sois meu Salvador e que morrestes para me salvar. Aqui me tendes aos vossos pés, reconheço que sou réu de tantos infernos quantas vezes vos ofendi mortalmente. Não mereço perdão, mas vós morrestes para me perdoar... Recordare, Jesu pie, quod sum causa tuae viae. Perdoai-me, ó Jesus, agora, antes de virdes a julgar-me. Então, não me será dado pedir-vos clemência; agora posso implorá-la e a espero. Então, atemorizar-me-ão as vossas chagas; agora me infundem esperança. Amantíssimo Redentor meu, arre-pendo-me sobretudo de ter ofendido a vossa Bonda-de infinita. Proponho aceitar qualquer trabalho, qual-quer tribulação, antes que perder vossa graça, por-que vos amo de todo o coração. Tende misericórdia de mim. Miserere mei, Deus, secundum magnam mi-sericordiam tuam...
Ó Maria, Mãe de misericórdia e Advogada dos pecadores, alcançai-me profunda dor dos meus pecados, o perdão deles e a perseverança no divino amor. Amo-vos, minha Rainha, e em vós confio.


V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.


Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004 

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