Teologia Ascética e Mística: Da luta contra o mundo (Parte IV)

Não iremos pois, ao mundo senão para exercermos direta ou indiretamente o apostolado, isto é, para lhe levarmos as máximas e os exemplos do evangelho. a)Não esqueceremos que somos luz do mundo (Mt 5,14), e sem transformarmos as nossas conversas, numa espécie de pregação (o que parecia descabido), apreciaremos tudo, as pessoas, os acontecimentos e as coisas a luz do evangelho; em lugar de proclamarmos felizes os ricos e os fortes, observemos com toda simplicidade que há outras fontes de felicidades diversas da fortuna e da riqueza, que a virtude encontra a sua recompensa já na terra, que as alegrias puras, saboreadas no seio da família, são as mais doces, que a satisfação do dever cumprido consola muitos desgraçados e que uma boa e sã consciência vale mais que os inebriamentos do prazer. Alguns fatos concretos, que citaremos, farão compreender estas observações. Mas é sobretudo pelo exemplo que um sacerdote edifica no trato com o próximo: quando tudo no seu porte e no seu falar, reflete a simplicidade, a bondade, a alegria franca, a caridade numa palavra, a santidade, produz sobre os que o veem e escutam uma impressão profunda; ninguém se cansa em admirar aqueles que buscam a viver as suas convicções, e estima-se uma religião que sabe inspirar virtudes tão sólidas. Empenhemo-nos em praticar o que nos diz Nosso Senhor: Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pais que estás nos Céus (Mt 5, 16). E não são unicamente os sacerdotes que praticam este gênero de apostolado: os leigos que arraigadas convicções exercem influência tanto mais benéfica quanto é menor a prevenção com que se olham os seus bons exemplos.

É estes homens de eleição e os sacerdotes que pertence inspirar aos cristãos mais tímidos a lutar contra a tirania do respeito humano, da moda e da perseguição legal. Uma das melhores  meios é formar ligas e associações, composta de cristãos influentes e corajosos que não temam em falar e proceder consoantes as suas convicções. Foram assim que os santos formaram os costumes dos tempos. Foram assim que se fundaram as nossas grandes escolas e até no parlamento, grupos compactos  que se fazer saber e respeitar as suas crenças religiosas e afastar os hesitantes. No dia em que esses grupos se houverem multiplicado não somente nas cidades mas também nos campos, o respeito humano estará bem perto de ser exterminado, e a verdadeira piedade, se não for praticada por todos, será ao menos respeitadas.

Por conseguinte, na prática nada de pactuações com o mundo no sentido em que o definimos, nada de concessões para lhe agradar ou atrair a sua estima. Como diz, com razão São Francisco de Sales: "Façamos o que fizermos, o mundo nos mover-nos-a sempre guerra... Deixemos esse cego.  Filotea: Deixe-mo-lo gritar o quanto quiser, como uma coruja, para aquietar as águias do dia. Sejamos firmes em nossos projetos, invariáveis em nossas soluções; a perseverança nos fará ver bem se estamos desinteressadamente e deveras sacrificados a Deus e consagrados a vida devota".

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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