sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Teologia Ascética e Mística: Da soberba da vida

Soberba
204. A) O mal. «O orgulho, diz Bossuet, é uma depravação mais profunda: por ele o homem, entregue a si mesmo, considera-se como seu próprio Deus, pelo excesso do seu amor próprio». Esquecendo que Deus é o seu primeiro princípio e último fim, estima-se a si mesmo em excesso, aprecia as verdadeiras ou pretensas qualidades, como se fossem suas, sem as referir a Deus. Daí esse espírito de independência ou de autonomia que o leva a subtrair-se à autoridade de Deus ou dos seus representantes; esse egoísmo que o inclina a operar para si mesmo como se fora o seu próprio fim: essa vã complacencia que se deleita na própria excelência, como se Deus não fosse dela o autor; que se compraz em suas boas obras, como se elas não fossem, antes de tudo e principalmente, resultado da ação divina em nós; essa tendência a exagerar as próprias qualidades, a atribuir-se outras que não possui, a preferir-se aos demais, até por vezes a desprezá-los. como fazia o Fariseu.

205. A este orgulho vem juntar-se a vaidade, pela qual se busca desordenadamente a estima, a aprovação, o louvor dos outros. É o que se chama vanglória. Porquanto, como faz notar Bossuet" «se estes louvores são falsos .ou injustos, que enorme é .o meu erro em neles tanto me comprazer! E, se são verdadeiros, donde me vem essoutro erro, de me deleitar menos com ,a ,verdade que com o testemunho. que lhe prestam os homens?» Coisa estranha, na verdade! Mais nos desvelamos pela estima dos homens que pela, virtude em si mesma, e mais humilhados nos sentimos duma inadvertência pública que duma falta secreta. Quando este defeito se vem a assenhorear de alguém, não tarda em produzir outros: a jactância, que nos inclina a falar de nós mesmos, dos nossos triunfos; a ostentação, que procura atrair a atenção pública pelo luxo e fausto; a hipocrisia, que se mascara dos exteriores da virtude, sem se importar de a adquirir.

206,. Os efeitos do orgulho são deploráveis: é o maior inimigo da perfeição: 1) porque rouba a Deus a sua glória, e por isso mesmo nos priva de muitas graças e merecimentos, pois Deus não quer ser cúmplice da nossa soberba: «Deus superbis resisiit»; 2) é a fonte de numerosos pecados: pecados de presunção, punidos com quedas lamentáveis e vícios odiosos; de desânimo, quando o orgulhoso vê que caiu tão baixo; de dissimulação, porque lhe custa confessar as suas desordens; de resistência aos superiores, de inveja e ciúme a respeito do próximo, etc.

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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