sexta-feira, 18 de maio de 2012

Teologia Ascética e Mística: Da Parte da Santíssima Virgem, dos santos e dos anjos na vida cristã (Parte V)

Conclusão: Devoção à Ss. Virgem

Desempenhando Maria papel tão importante em nossa vida espiritual, devemos ter para com ela grandíssima devoção. Esta palavra quer dizer dedicação, e dedicação quer dizer, dom em si mesmo. Seremos, pois, devotos de Maria, se nos dermos completamente a ela, e por ela, a Deus. Nisto não faremos senão imitar o próprio Deus que se nos dá a nós e nos dá também o Filho por intermédio de Maria. Daremos a nossa inteligência pela veneração mais profunda,  a nossa vontade pela nossa confiança mais absoluta, o nosso coração pelo amor mais filial, inteiramente todo o nosso ser pela imitação mais perfeita, que for possível das suas virtudes.

Veneração mais profunda: Esta veneração se baseia na dignidade de Mãe de Deus e nas consequências que daí dimanam. E, com efeito, jamais nos será possível estimar demasiadamente aquela que o Verbo Encarnado venera como sua Mãe, que o Pai contempla com amor como sua filha muito amada e que o Espírito Santo considera como seu templo e predileção.  O Pai trata-a com o maior respeito, enviando-lhe um anjo que a saúda como cheia de graça e pede seu consentimento na obra da Encarnação, à qual que tão intimamente associar: O Filho respeita-a, ama-a como sua Mãe e obedece-lhe; o Espírito Santo vem até ela e nela tem as suas complacências. Venerando Maria não fazemos, pois, senão associar-nos as três pessoas divinas Pessoas e estimar o que Eles estimam.

Há sem dúvida excessos que é mister evitar, particularmente tudo aquilo que porventura tendesse colocá-la a par de Deus, ou fazer dela a fonte da graça. Mas, enquanto a consideramos como criatura, que não tem grandeza, nem santidade, nem poder senão na medida em que Deus lhe confere, não há excesso que recear: é Deus que veneramos nela.

Esta veneração deve ser maior que a que temos para com os Anjos e os Santos, precisamente porque ela, pela sua dignidade de Mãe de Deus, pelo múnus de Mediadora, pela sua santidade sobrepuja todas as criaturas. E assim o seu culto, não obstante de ser dulia e não de latria é chamado com razão de hiperdulia, pois é superior ao que se tributa aos Anjos e aos Santos.

Confiança Absoluta: fundada no poder e na bondade de Maria:

a) este poder vem não dela mesma, mas do seu poder de intercessão, já que Deus não quer recusar nada de legítimo àquela que ama e venera acima de todas as criaturas. Nada mais equitativo: tendo Maria subministrado a Jesus aquela humanidade que lhe permitiu merecer, tendo colaborado com Ele pelas suas ações e sofrimentos na obra redentora, é conveniente que tenha parte na distribuição dos frutos das Redenção: Jesus não recusará pois, nada que ela pedir de legítimo, e assim poderá se dizer que ela é onipotente pelas suas súplicas, omnipotentia supplex;  

b) Quanto a sua bondade, essa é a de Mãe que transfere para nós, membros de Jesus Cristo, a afeição que tem para com seu Filho; de Mãe que, tendo nos dado a luz na dor, entre as angústias do Calvário, nos terá tanto maior amor quanto mais lhe custarmos. Por conseguinte a nossa confiança para com ela será inabalável e universal.

Inabalável, a despeito das nossas misérias e faltas. É que, na verdade, Maria é Mãe de Misericórdia, Mater Misericordiae, que não tem que se ocupar da justiça, mas foi escolhida para exercer antes de tudo  a compaixão, a bondade, a condescendência: sabendo que nos achamos expostos aos ataques da concupiscência, do mundo e do demônio, tem compaixão de nós, que não cessamos de ser seus filhos, ainda quando caímos em pecado. E assim, tanto que manifestamos o mínimo sinal de boa vontade, o desejo de voltar a Deus. Ela nos acolhe com bondade; muitas vezes até, é Ela que, antecipando-se, a esses bons movimentos, nos alcançará as graças que os excitarão em nossas almas. A Igreja compreendeu-o tão bem que instituiu, para certas dioceses, uma festa sob esta invocação que, à primeira vista parece estranha, , mas na realidade, é perfeitamente justificada, de Coração Imaculado de Maria, refúgio dos pecadores; precisamente porque é imaculada e jamais cometeu a menor falta, é que Maria tem maior compaixão dos seus pobres filhos que não gozam, com ela, do privilégio da isenção da concupiscência.

Universal, isto é, deve estender-se a todas as graças de que precisamos, graças de conversão, de progresso espiritual, de perseverança final, graças de preservação no meio dos perigos, nas angústias, das dificuldades mais graves que se podem apresentar. É esta confiança que recomenda tão instantemente São Bernardo: “Se levantam as tempestades das tentações, se vos encontrais no meio dos escolhos das tribulações, erguei os olhos para a estrela do mar, chamai a Maria em vosso auxílio; se sois sacudidos à mercê das vagas da soberba, da ambição, da maledicência, da inveja, olhai para a estrela, invocai a Maria. Se a cólera, a avareza, os prazeres da carne agitam a barca de vossas almas, ponde os olhos em Maria. Se, perturbados pela grandeza dos vossos crimes, confusos pelo estado miserável da vossa consciência, transidos de horror com o pensamente do juízo, começais a assombrar no abismo da tristeza e do desespero, pensai em Maria. No meio dos perigos, das angústias, das incertezas, pensai em Maria, invoca a Maria. A sua invocação, o pensamento dela não se afaste nem do vosso coração, nem dos vossos lábios; e para, obterdes mais seguramente o auxílio das suas preces, não vos descuideis de imitar os seus exemplos. Seguindo-a, não vos extraviais; suplicando-a, não desesperais; pensando nela, não vos perdeis. Enquanto ela vos tem de sua mão, não podeis cair; sob a sua proteção, não tendes nada que temer; sob a sua guia, não há cansaço; com o seu favor, chega-se seguramente ao termo” (Homi.II, De laudibus Virg. Matris 17). E, como temos constantemente necessidade de graça, para vencer os inimigos e progredir na virtude, devemos dirigir-nos muito amiúde àquela que tão justamente é chamada de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

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