Liturgia Católica II: A EXCELÊNCIA DA LITURGIA

5. A EXCELÊNCIA DA LITURGIA


A Liturgia católica é de excelência grandiosa.
1. E' magnífica glorificação de Deus. Todas as perfeições divinas são objeto do seu culto; contínuas são as expressões de agradecimento, louvor, de homenagem. A Igreja imita os santos do céu (Apoc 4, 11) ; dando honra e glória ao Altíssimo, associa-se a eles (prefácio da missa); chama ao serviço d'Ele todas as criaturas, todas as ciências, todas as artes.

2. E' fonte da fé católica, pois nela a Igreja depôs parte da tradição católica. O papa Celestino diz que "a lei de rezar estabelece a lei de crer". Por isso das palavras usadas nas fórmulas das orações e hinos se pode deduzir a fé católica. Assim S. Agostinho prova pelo rito do batismo que todos nascem com o pecado original. (De pecc. merit. 1. 1, c. 34.)

Na bula sobre a Imaculada Conceição, entre os argumentos que provam esta verdade, aduz o papa Pio IX também a Liturgia: "A própria Igreja manifestamente insinuou esta doutrina (da Imaculada Conceição), quando não duvidou de propor a Conceição da Virgem SS. ao culto e à veneração pública dos fiéis. Com este fato ilustre propôs a Conceição da Virgem SS. como maravilhosa e completamente santa e venerada, já que a igreja só celebra as suas festas de coisas santas." (Eph. Lit. 1935, p. 369 sqq, onde, partindo da Liturgia, se prova a divindade e humanidade de Cristo, sua dignidade de Rei, Redentor, Sacerdote, Medianeiro.)

3. A Liturgia é meio de santificação. A perfeição é, antes de tudo, o efeito da graça divina: "Sem mim nada podeis fazer." (Jo 15, 5.) Os sacramentos, orações e sacramentais são as fontes inexauríveis da graça santificante e atual. Na Liturgia se acha a fôrça para tornar a alma pura, para combater e desarraigar os vícios e os defeitos morais. A Liturgia é escola de todas as virtudes pela leitura contínua da sagrada escritura, da vida dos santos, pela memória da vida, morte, e triunfo de Cristo Redentor, e dos exemplos do seu Coração divino, no ciclo das festas do ano litúrgico. A alma aprende a amar a cruz, a cultivar a vida interior, a professar publicamente a fé, a desprezar o respeito humano, a evitar as fraudes do mundo e do demônio, a chegar à íntima familiaridade com Deus. (Piacenza, Lit. p. 5; Coelho, p. 168-191; Hildebrand: Liturgie und Per - sônlichkeit.) 0 papa Sisto V exalta os efeitos da Liturgia, dizendo:

"Os santos ritos e cerimônias de que a Igreja, ensinada pelo Espírito Santo em virtude da tradição e do regime desde os apóstolos, usa na administração dos sacramentos, nos ofícios divinos, em toda veneração de Deus e dos santos, contêm abundante instrução para o povo cristão e profissão da verdadeira fé; chamam a atenção para a majestade das coisas santas, levantam o espírito dos fiéis à meditação das coisas mais sublimes e inflamam-no com o ardor da devoção."

O célebre poeta francês Paulo Claudel era livre pensador, mas converteu-se (1890). Descreve as emoções da alma que sentiu assistindo à missa, na igreja de Notre Dame, em Paris, anos antes da sua conversão: "Passava os meus domingos em Notre Dame e também durante a semana tenho ido lá, quantas vezes me foi possível. Naquele tempo era ainda tão ignorante em religião como talvez se possa ser no budismo. E então desenrolou-se diante dos meus olhos o sagrado drama com uma grandiosidade que sobrepujou toda a minha imaginação. Ah! isto verdadeiramente não foi mais a pobre língua dos devocionários. Foi a poesia mais profunda e grandiosa, foram os gestos mais sublimes que jamais foram permitidos a um ser humano. Não me podia saciar olhando o espelaculo da santa missa, e cada um dos movimentos do sacerdote se gravou profundamente no meu espirito e no meu coração. A leitura do ofício dos defuntos, da liturgia do natal, o espetáculo da semana santa, o canto celestial do Exsultet, a cujo lado os sons riais entusiásticos de Píndaro e Sófocles me pareciam insulsos, ludo isto me arrebatou de alegria, gratidão, arrependimento e adoração." (Lamping, OFM., p. 228.)

4. A excelência da Liturgia foi intensivamente salientada pelo movimento litúrgico moderno. O seu precursor foi Gueranger com o seu "Ano Litúrgico" (1841) . O movimento litúrgico atual tem a sua origem na reforma da música sacra por Pio X (1903). Se o povo toma parte no canto litúrgico, é natural exigir que entenda as palavras do texto. E se assiste à missa solene, é lógico adverti-lo que compareça á missa rezada e outros atos litúrgicos.

O movimento litúrgico quer, portanto, proporcionar ao povo a possibilidade de entender melhor a Liturgia e, pelos ensinamentos nela contidos, contribuir para a reforma e perfeição da vida cristã. Consegue este fim teórica e praticamente. A teoria compreende as instruções sobre a liturgia dos sacramentos e sacramentais, as práticas litúrgicas, semanas e revistas litúrgicas, a arte litúrgica, a tradução dos textos litúrgicos.

A prática é de maior importância. Abrange a assistência à missa, a celebração das missas solenes e cantadas e o canto do povo, o uso piedoso dos sacramentos e sacramentais, as procissões, exposições do Santíssimo, a vida com os tempos litúrgicos, as devoções públicas e privadas correspondentes aos tempos litúrgicos. Tudo isto é louvável e próprio para remediar a ignorância de não poucos que não sabem distinguir a missa da bênção eucarística. O movimento litúrgico promove especialmente a missa dialogada.



5. Missa dialogada chama-se o santo sacrifício celebrado não só com assistência mais ou menos passiva do povo, mas com a assistência  decididamente ativa. O sacerdote reza no altar e o povo responde. E' diálogo. Esta forma de celebrar a missa tem o seu sólido fundamento na qualidade da missa como ação litúrgica comum do sacerdote e do povo e na verdade do Corpo Místico de Jesus Cristo. Rege-se pelas rubricas do missal e pelos decretos da S. Congregação dos Ritos.


1. Na missa rezada os fiéis podem responder junto com o ministro (ajudante) aquelas fórmulas, pelas quais o celebrante se dirige ao povo. Não existe rubrica que o proíba.


2. Sem licença do Bispo é permitido aos fiéis responder junto com o ministro ao Confiteor (Rit. cel. III, 9, 10), Kyrie (IV, 2) e Orate fratres (VII, 7). Por isso podem os fiéis rezar em latim o Confiteor com o ajudante para a comunhão, dentro e fora da missa.


3. Só com licença do Bispo, especial para cada comunidade (in singulis casibus, S. C. R. 30 nov. 1935), é permitido aos fiéis responder. ao Celebrante junto com o ministro, em todas as partes em que o ministro responde, p. ex., Deo gratias; Laus tibi, Christe; etc.


4. Sem a dita licença especial do Bispo não se permite recitar junto com o sacerdote o Glória, o Credo, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei. (S. C. R., 30 de nov., 1935.) Nem o Glória, .nem. o Credo, nem salmo algum, ao menos no século IX, foi cantado pelo povo. E não se pode provar que mais tarde os fiéis tivessem o direito de dizer na missa rezada, junto com o C, aquelas partes que podiam cantar na missa solene. As partes que na missa solene são cantadas pelo coro e pelo povo, por lei constante da Igreja, foram confiadas na missa rezada exclusivamente ao sacerdote.


5. E' contra a tradição constante e antiquíssima o povo recitar em comum com o sacerdote o Pater noster. (S. Greg. Mag., ep. 12.)


6. Outras fórmulas, por exemplo, Domine non sum dignus, não foram permitidas ao povo.


7. E' proibido que se diga a missa sem ajudante varão, e que o povo responda em seu lugar. (Can. 813.)


8. E' proibido que os fiéis leiam em voz alta as secretas, o cânon, e as palavras santas da consagração. Estas partes devem ser rezadas pelo sacerdote, em voz baixa, com exceção de poucas palavras. O que se não concede ao C, não se pode conceder ao povo. (d. 4375.)


9. Supõe-se sempre que o celebrante consinta em se dizer a missa dialogada. Em diversos decretos a S. Congregação dos Ritos declara: nem tudo o que é licito é também oportuno, por causa dos inconvenientes que facilmente resultam, pela perturbação que podem sofrer os sacerdotes com detrimento da ação santa e das rubricas (d. 4375), e isto ainda mais na recitação em comum do Glória, Credo, etc. (30 de nov. 1935.)


10. Impropriamente chamam missa dialogada àquela em que um leitor reza as partes do sacerdote ou parte de oração litúrgica e o povo responde ou continua os orações começadas. Também para este método vale a proibição de não ler em voz alta as secretas e o cânon. (d. 4375; Periódica 1936, p. 57*, Eph. Lit. 1934, p. 121.) A S. C. R. não favorece a missa dialogada. Por isso diz o C. B. (n. 199) :

"§ 1. Segundo a mente da S. Sé convém guardar a praxe comum, conforme a qual a reunião dos fiéis, que assistem à missa, não responda em comum ao celebrante. § 2. Nem se pode aprovar o uso, que leiam em voz alta a secreta, o cânon e mesmo as palavras da consagração."

Por Pio XII (Encic. 29-6-943) foi condenado o liturgismo deprimente que tira o valor da oração privada, mina o amor à Igreja que é venerável também nos seus representantes, descura da devoção ,a Maria Santíssima, descuida-se da honra divina de Jesus Cristo, e exagera o mistério do Corpo Místico de Cristo, querendo identificar o homem com Cristo, ao passo que este mistério é "a união da fé em Cristo e na Igreja e pela Igreja."

Fonte: Curso de Liturgia - 2ª Edição - Pe. João Batista Reus, S. J. - Ed Vozes Limitada - Petrópolis - Rj 1944

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