Teologia Ascética e Mística: Da parte de Deus na vida Cristã (Parte III)

Deus dar-se-nos também a título de amigo. A amizade acrescenta nas relações de Pai e filho uma certa igualdade, uma certa intimidade, uma reciprocidade que implica as mais doces comunicações. Ora são precisamente relações deste gênero que a graça estabelece entre Deus e nós. É evidente que, tratando-se de Deus e do homem, não é possível falar de igualdade verdadeira, senão de uma certa semelhança que basta a estabelecer uma certa intimidade. E com efeito, Deus confia-nos os seus segredos; fala-nos não somente pela sua Igreja, senão também de um certo modo interior, pelo Espírito Santo: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito"(Jo 14, 26). E assim na última ceia, declara Jesus a seus apóstolos que daí em diante já não os chamará de servos, senão amigos pois não terá mais segredos entre eles: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai"(Jo 15, 15). Será, pois, uma doce familiaridade que presidirá desde esse momento às suas relações, essa familiaridade que existe entre amigos, quando se sentam, face a face, à mesa dum banquete: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo"(Apo 3, 20). Admirável intimidade que não houvéramos jamais ousado ambicionar, se o amigo divino se não tivesse antecipado. E contudo esta intimidade tem-se realizado e realiza-se ainda cada dia, não somente nos santos, mas também nas almas interiores que consentem em abrir a porta de sua alma ao hóspede divino. É o que nos atesta o autor da imitação, quando descreve as freqüentes visitas do Espírito Santo às almas interiores, os doces colóquios que entretém com elas, as consolações e as carícias de que as cumula, a paz que nelas faz reinar, a assombrosa familiaridade com que as trata: "O reino de Deus está dentro de vós, disse o Senhor. Deixa este mundo miserável e tua alma encontrará descanso"(Imitação de Cristo l. II, c. 1, n. 1). Demais a vida dos místicos contemporâneos, tais como Santa Tereza do Menino Jesus, Soror Isabel da Trindade, Santa Gema Galgani e tantos outros, mostra-nos que estas palavras da imitação se realizam todos os dias. É, pois, verdade pura que Deus vive em nós como um amigo íntimo.


Mas não fica em nós ociosos, opera em nossa alma como o mais poderoso dos colaboradores. Como sabe perfeitamente que de nós mesmos não podemos cultivar esta vida sobrenatural em nós depositada, supre a nossa impotência, colaborando conosco pela graça atual. Necessitamos de luz, para perceber as verdades da fé, que doravante nos guiarão os nossos passos? É ele o pai da luzes, que nos virá iluminar a inteligência acerca do nosso último fim e dos meios para o alcançar; é Ele o Pai das luzes, que nos virá iluminar a nossa inteligência acerca do nosso último fim e dos meios para o alcançar; é Ele que nos sugerirá bons pensamentos inspiradores de boas ações. Precisamos de força para querer sinceramente orientar a vida para o nosso fim, para o querer enérgica e constantemente? É Ele que nos dará este concurso sobrenatural que nos permite formar e cumprir as nossas resoluções, "Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar"(Filipen 2, 13). Se trata de combater e disciplinar as nossas paixões, de vencer as tentações que por vezes nos importunam, é Ele ainda que nos dará forças de lhes resistir e tirar delas partido para nos fortalecermos na virtude: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela"(1Cor 10, 13). Quando fatigados de praticar o bem, nos sentirmos tentados ao desalento e aos desfalecimentos, Ele se aproximará de nós, para nos sustentar e assegurar a perseverança: "Estou persuadido de que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o acabamento até o dia de Jesus Cristo"(Filipens 1, 6). Numa palavra, jamais estaremos sós, ainda quando, privados de consolação, nos julgarmos desamparados: a graça de Deus estará sempre conosco, contanto que consintamos em trabalhar com ela: "Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo"(1Cor 15, 10). Apoiados neste poderoso colaborador, seremos invencíveis, pois que tudo podemos naquele que nos conforta: "Tudo posso naquele que me conforta"(Filipen 4, 13).
 

Este colaborador é ao mesmo tempo santificador: vindo habitar a nossa alma, transforma-a num templo santo, ornados de todas as virtudes: "Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós"(1Cor 3, 17). O Deus que vem a nós pela graça, não é, efetivamente, o Deus da natureza, senão o Deus vivo, a Santíssima Trindade, fonte infinita de vida divina, que nada mais ardentemente deseja que fazer-nos participar da sua santidade. Esta habitação atribui-se muitas vezes ao Espírito Santo, por apropriação, por ser obra de amor; mas, como é uma obra ad extra, é comum às três pessoas divinas. Eis o motivo pelo qual São Paulo nos chama indiferentemente Templos de Deus e Templos do Espírito Santo: "Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?"(1Cor 3, 16).
 

A nossa alma torna-se, pois templo de Deus vivo, recinto sagrado, reservado a Deus, trono de misericórdia onde ele se compraz em distribuir os seus favores celestes, e que adorna de todas as virtudes. Logo descrevemos o organismo sobrenatural de que nos dota. Mas é evidente de que a presença em nós do Deus três vezes Santo, tal como acabamos de esboçar, não pode deixar de ser santificadora, e que a adorável Trindade, vivendo e operando em nós, é sem dúvida o princípio da nossa santificação, a fonte da nossa vida interior. E é adoção, devemos imitar o nosso Pai. Isto melhor se compreenderá, estudando como nós devemos portar para com as três divinas pessoas que habitam em nós.


(Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Ed. Apostolado da Imprensa - 1961 - 6ª edição)

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