terça-feira, 18 de outubro de 2011

preparação para a morte: Sentimentos de um moribundo não acostumado a pensar na morte

PONTO III
Para o moribundo que, durante sua existência, não zelou o bem de sua alma, serão espinhos todos os objetos que se lhe apresentarem. Espinhos a lembrança dos prazeres gozados, dos triunfos e das vaidades do mundo. Espinhos a pre-sença dos amigos que o visitem e as coisas que eles lhe recordarão. Espinhos os sacerdotes que o assis-tem, e os sacramentos que deve receber, confissão, comunhão e extrema- unção; até o crucifixo que a-presentam será como espinho de remorso, porque o pobre moribundo verá na santa imagem quão pouco correspondeu ao amor de um Deus que morreu para salvá-lo.
“Grande foi minha insensatez! — dirá então o en-fermo. — Podia ter-me santificado com as luzes e os meios que o Senhor me ofereceu; podia ter levado vida feliz na graça de Deus, e que me resta depois de tantos anos perdidos, senão desconfiança e angústia e remorso de consciência, e contas severas a dar a Deus? Difícil é agora a salvação de minha alma...” E quando fará ele tais reflexões?... Quando está para se extinguir a lâmpada da vida, quando está a finali-zar a cena deste mundo, quando se encontra face a face com as duas eternidades, a feliz e a desgraçada, quando está prestes a exalar o último suspiro, de que dependem a bem-aventurança ou a condenação permanentes, eternas, enquanto Deus for Deus. O que daria então para dispor de mais um ano, um mês, uma semana sequer, em juízo perfeito, porque naquele estado de enfermidade, aturdida a mente, oprimido o peito, alterado o coração, nada pode fa-zer, nada pode meditar, nem conseguir que o espírito abatido leve a cabo um ato meritório! Sente-se como encerrado num fosso escuro, onde tudo é confusão, onde nada percebe senão a grande ruína que o ame-aça e à qual se vê na impossibilidade de fugir...
Pedirá tempo. Mas ser-lhe-á dito: Proficiscere, parte: em seguida prepara tuas contas como melhor puderes neste agitado momento, e parte sem demo-ra. Não sabes que a morte nunca espera, nem tem consideração com ninguém? Oh! com que terror o enfermo refletirá: nesta manhã ainda vivo; à noite tal-vez já esteja morto! Hoje estou ainda em meu quarto; amanhã estarei na sepultura... e minha alma: onde estará?... Que susto quando vir preparar o círio fúne-bre; quando sentir o suor frio da morte; quando ouvir seus parentes dizer que sairá do quarto para nunca mais entrar; quando começar a perder a vista, e por último, quando acenderem a luz que há de brilhar no derradeiro instante de sua vida. Ó luz bendita, quan-tas verdades descobrirás então! Como farás ver as coisas diferentes do que são agora! Como farás co-nhecer que todos os bens deste mundo são vaida-des, loucuras e mentiras!... Mas de que servirá com-preender estas verdades, quando já não haverá tem-po para se aproveitaram?

AFETOS E SÚPLICAS
Não quereis, Senhor, a minha morte, mas que me converta e viva.
Profunda gratidão me inspiram vossa paciência em esperar por mim até hoje, e as graças que me outorgastes. Conheço o erro que cometi, preferindo à vossa amizade os vis e míseros bens pelos quais vos desprezei.
Arrependo-me de todo o coração de ter-vos ofen-dido. Não deixeis, pois, de assistir-me com vossa luz e vossa graça, nos dias que me restam de vida, a fim de que possa conhecer e praticar o que deva fazer para emendar minha vida. Que proveito teria, se a-prendesse estas verdades, mas já não houvesse tempo de me corrigir?... “Não entregues às feras as almas que te louvam” (Sl 73,19). Quando o demônio me excitar a ofender-vos de novo, rogo-vos, ó Jesus, pelos merecimentos de vossa Paixão, que me livreis de recair em pecado e de voltar à escravidão do ini-migo. Fazei que sempre recorra a vós, e que não cesse de encomendar-me a vós enquanto durar a tentação. Vosso sangue é minha esperança, e vossa bondade o meu amor. Amo-vos, ó Deus, digno de amor infinito; fazei que vos ame sempre e que co-nheça as coisas de que devo afastar-me para ser to-do vosso como desejo. Dai-me forças para executar esta resolução. Vós, Rainha do céu e minha Mãe, rogai por mim, pobre pecador. Fazei que nas tenta-ções não deixe de recorrer a Jesus, e a vós, que, pela vossa intercessão, preservais de cair em pecado a quantos invocam vosso auxílio.

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

Nenhum comentário: