terça-feira, 4 de outubro de 2011

preparação para a morte: Sentimentos de um moribundo não acostumado a pensar na morte

Disponde domui tuae, quia morieris tu, et non vives. Dispõe de tua casa, porque morrerás e não vi-verás (Is 38,1).

PONTO I
Imagina que te achas junto a um enfermo a quem restam poucas horas de vida... Pobre enfermo! Con-sidera como o oprimem e angustiam as dores, os desfalecimentos, a asfixia e falta de respiração, o su-or frio e o entorpecimento até ao ponto de quase não ouvir, quase não compreender e quase não falar... Entretanto, a sua maior desgraça consiste em que, estando próximo à morte, em vez de pensar na alma e de preparar as contas para a eternidade, só pensa nos médicos, nos remédios, para se livrar da doença
que o vai vitimando. Não são capazes de pensar em outra coisa que em si mesmos, disse São Lourenço Justiniano, falando dos moribundos desta espécie... Mas, certamente, os parentes e amigos lhe manifes-tarão o perigoso estado em que se acha?... Não; não há entre todos eles nenhum que se atreva a lhe falar na morte e adverti-lo de que deve receber os santos sacramentos. Todos se escusam de lhe falar para não molestá-lo.
Ó meu Deus, dou-vos graças mil porque na hora da morte fazeis que seja assistido pelos queridos confrades de minha congregação, os quais, sem ou-tro interesse que o de minha salvação, me ajudarão a todos a bem morrer.
No entanto, ainda que se lhe não anuncie a apro-ximação da morte, o pobre enfermo, vendo a confu-são da família, as consultas dos médicos, os remé-dios multiplicados, freqüentes e violentos, que apli-cam, se enche de angústia e terror, entre contínuos assaltos de receio, desconfiança e remorsos, dizendo de si para si: quem sabe se terá chegado o fim de meus dias?... Quem não sentirá quando, enfim, rece-be a notícia da sua morte próxima! Dispõe as coisas de tua casa, porque morrerás e não viverás... (Is 38,1). Que mágoa terá ao saber que sua enfermidade é mortal, que é tempo de receber os sacramentos, de se unir com Deus e de despedir-se do mundo!... Des-pedir-se do mundo! Mas como?... Há de abandonar tudo, a casa, a cidade, os parentes e amigos, as sociedades, os jogos, os divertimentos?... Sim, tudo. Ante o tabelião, já presente, escreve-se esta despe-dida com a fórmula: Deixo a tal pessoa; deixo... E que levará consigo? Apenas uma pobre mortalha, que dentro em breve se deverá consumir com ele próprio na sepultura.
Que perturbação e que tristeza sentirá o mori-bundo quando vir as lágrimas da família, o silêncio dos amigos, que, mudos, o cercam, pois não têm â-nimo para falar! Maior angústia lhe darão os remor-sos da consciência, que nesse momento se manifes-tam vivíssimos pelas desordens da vida passada, de-pois de tantos convites e luzes, depois de tantos avi-sos dos padres espirituais, de tantas resoluções to-madas, mas nunca executadas ou depressa esqueci-das. “Pobre de mim, dirá o moribundo, que recebi de Deus tantas luzes, tanto tempo para pôr em ordem a minha consciência, e não o fiz! E eis que agora que me vejo no transe da morte! Que me teria custado evitar esta ocasião, afastar-me daquela amizade, confessar-me todas as semanas?... E ainda que isto fosse muito custoso, não o devia fazer para salvar minha alma, que vale mais que tudo?... Ah, se tivesse executado aquela boa resolução que tinha formado, se tivesse continuado, como então comecei, quanto estaria hoje contente! Mas não o fiz e agora já não é tempo de fazê-lo”...
Os sentimentos destes moribundos, que durante a vida desprezaram a consciência, se assemelham aos dos condenados que, sem fruto nem remédio, choram no inferno seus pecados como causa de suas penas.

AFETOS E SÚPLICAS
São estes, Senhor, os sentimentos e angústias que teria, se neste momento me avisassem do fim próximo... Dou-vos fervorosas graças por estas con-siderações e por haver-me dado tempo para emen-dar-me.
Não, meu Deus, não quero mais afastar-me de vós. Repetidas vezes me haveis procurado e se ago-ra resistir e não me entregar a vós, fundamente deve-ria temer que me abandonásseis para sempre. Des-tes- me um coração para vos amar; mas dele fiz mau uso, amando as criaturas e não a vós, Criador e Re-dentor meu, que por mim destes a vida.
Não apenas deixei de vos amar, mas mil vezes vos hei desprezado e ofendido; e sabendo que o pe-cado vos desgostaria em extremo, não hesitei em cometê-lo... Ó Jesus meu, arrependo-me e de todo o coração detesto o mal! Quero mudar de vida, renun-ciando a todos os prazeres mundanos para somente vos amar e servir, ó Deus de minha alma! Tendes-me dado grandes provas de vosso amor, quisera tam-bém, antes de morrer, dar-vos algumas do meu a-mor... Aceito, desde já, todas as enfermidades e cru-zes que me enviais, todos os trabalhos e desprezos que receber dos homens. Dai-me forças para suportar tudo em paz, por vosso amor, como desejo. Amo-vos, Bondade infinita; amo-vos sobre todas as coisas. Aumentai meu amor e concedei-me a santa perseverança...

Maria, minha esperança, rogai a Jesus por mim!

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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