quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Catecismo Romano: "Desceu aos infernos, e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos" (Parte IV)

Como estivera encerrado no sepulcro, pelo espaço todo de um dia natural, parte da véspera e parte do terceiro dia, podemos dizer, com toda a expressão da verdade, que permaneceu três dias na sepultura, e que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia.

Para dar prova de sua divindade, não quis retardar a ressurreição até o fim do mundo. De outro lado, para crermos que era homem de verdade, e que realmente tinha morrido, não ressuscitou logo depois da morte, mas ao terceiro dia. Este intervalo pareceu suficiente para demonstrar a realidade de sua morte.

Os padres do primeiro Concílio de Constantinopla puseram aqui o acréscimo "segundo as Escrituras". Se introduziram no Símbolo da Fé esta expressão do Apóstolo (1Cor 15,3-4), é porque o mesmo Apóstolo ensina a necessidade fundamental do mistério da ressurreição: "Se Cristo não ressuscitou, de nada vale pois a nossa pregação, e para nada adianta a vossa fé" (1Cor 15,14-17). E ainda: "Se Cristo não ressuscitou, vã é vossa fé, pois ainda estais em vossos pecados".

Por isso é que cheio de admiração pela verdade deste artigo, Santo Agostinho escreveu: "Que muito cremos que Cristo morreu? também os pagãos, os judeus, e todos os maus acreditam. Todos crêem que morreu. A fé dos Cristãos é a ressurreição de Cristo. O que muito importa é crermos que ele ressuscitou".

Esta é a razão por que Nosso Senhor falava tão amiúde da sua ressurreição. Quase nunca se entretinha de sua paixão com os discípulos, sem discorrer acerca da ressurreição. Disse por exemplo: "O filho do homem será entregue aos gentios, escarnecido, flagelado e cuspido. Depois de flagelado hão de dar-lhe a morte". E por fim acrescentou: "E ressuscitará ao terceiro dia" (Lc 18,32ss).

Quando os judeus lhe pediram que confirmasse sua doutrina com algum sinal ou prodígio, respondeu: "nenhum outro sinal será dado senão o sinal do profeta Jonas. Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim o filho do homem, afirmou ele, estará três dias e três noites no ventre da terra." (Mt 12,39ss).

No entanto para melhor compreendermos o alcance e a significação deste artigo, há três questões que devemos ver e analisar mais de perto: Primeiro, por que motivo devia Cristo ressuscitar; segundo, qual era a finalidade da ressurreição, quais os frutos e proveitos que dela resultam em nosso benefício.

Encarando a primeira questão, era necessário que ele ressuscitasse para que Deus manifestasse sua justiça. Convinha, sob todos os aspectos, que Deus exaltasse aquele que, para lhe obedecer, fora rebaixado e coberto de todas as ignomínias. O Apóstolo alega esta razão, quando escreve aos filipenses: "Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso é que Deus o exaltou” (Fil 2,8-9).

Além do mais devia consolidar em nós a fé, sem a qual o homem não pode justificar-se. A maior prova de que Cristo era filho de Deus, deve ser o fato de que ressuscitou dentre os mortos por própria virtude.

E ainda, devia nutrir e apoiar nossa própria esperança. Uma vez que Cristo ressuscitou, temos a firme esperança de que nós havemos de ressurgir; porquanto os membros devem chegar a mesma condição em que se acha a cabeça.

Esta é a conclusão que o Apóstolo parece tirar de seus argumentos, quando escreve aos Coríntios e aos Tessalonicenses. E o que também diz São Pedro, Príncipe dos apóstolos: "Bendito seja Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo que dentre os mortos nos regenerou, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível".

Como última das razões deve ensinar-se que a ressurreição de Nosso Senhor era necessária para confirmar o mistério de nossa salvação e redenção.

Pela morte Cristo remiu-nos dos pecados. Pela sua ressurreição, restituiu-nos os preciosos bens, que havíamos perdido, em conseqüência de nossa prevaricação. Eis porque o Apóstolo disse: "Cristo foi entregue por causa dos nossos pecados, e ressuscitou por causa de nossa justificação" (Rom 4,25).

Por conseguinte, para que nada faltasse a salvação do gênero humano, ele precisava também ressurgir, da mesma forma que precisava morrer.

(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - 1962 - Ed. Vozes)

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