quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Catecismo Romano: "Desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos." (Parte II)

Não se deve, porém, julgar que Cristo desceu de tal maneira aos infernos, que só ali chegasse com seu poder e virtude, e não com sua própria alma. Devemos crer, ao contrário, que a própria alma realmente desceu aos infernos, e ali esteve presente com todas as Suas faculdades. Assim o declara Davi em termos peremptórios: "Não deixareis minha alma abandonada nos infernos" (Sal 15,10 - entenda-se como limbo).

Mas, com descer aos infernos, Cristo nada perdeu de seu supremo poder, e nem de leve conspurcou a limpidez de sua santidade. Pelo contrário. Esse fato mostrou, à luz meridiana, como era verdade tudo o que se havia predito de sua santidade; e que Cristo é filho de Deus, conforme ele mesmo tinha antes declarado, por meio de tantos milagres.

Será mais fácil compreender o que aconteceu, se compararmos entre si as causas por que Cristo e outros homens desceram aquele lugar.

Todos o mais desceram aos infernos na condição de cativos (Sal 87,5ss). Ele, porém, "livre entre os mortos" (Sal 87,6) e vitorioso, lá foi abater os demônios que mantinha os homens presos e agrilhoados, em conseqüência do pecado.

Além disso, todos os outros que para lá desceram, uns eram atormentados pelo rigor das maiores penas; outros não sentiam dores propriamente, mas angustiavam-se com a privação da vista de Deus, e com a retardo daquilo que tanto anelavam: a glória da eterna felicidade.

Ora, Cristo Nosso Senhor desceu aos infernos, não para sofrer alguma pena, mas para livrar os Santos e justos daquele miserável e doloroso cativeiro, e para lhes aplicar os frutos de sua Paixão. Portanto, a descida aos infernos não diminuiu coisa alguma de absoluta dignidade e soberania.

Depois destas explicações, devemos entender que Cristo desceu aos infernos, para arrebatar as presas do demônio, livrar do cárcere os santos patriarcas e outros justos, e levá-los ao céu em sua companhia.

Foi o que fez, de uma maneira admirável e sumamente gloriosa. Com sua presença logo derramou sobre os cativos uma luz de grande fulgor, incutiu-lhes na alma um inefável sentimento de alegria e prazer, e conferiu-lhes também a muito almejada felicidade, que consiste na visão de Deus. Realizou então a promessa que havia feito ao bom ladrão, quando lhe disse: "hoje mesmo estarás comigo no paraíso" (Lc 23,43).

Esta libertação dos justos, Oséias a tinha predito muito tempo antes, ao prorromper nas palavras: "Ó morte, eu hei de ser a tua morte; Eu hei de ser a tua ruína, ó inferno! (Os 13,14). O mesmo havia vaticinado o profeta Zacarias nestes termos: "Tu também, por causa do sangue de tua aliança fizeste sair teus cativos do lago, em que não existe água" (Zac 9,11). E o que afinal também exprime aquela afirmação do Apóstolo: "Desarmou os principados e as potestades, e arrastou-os ao pelourinho, depois de ter, por si mesmo, triunfado publicamente sobre eles (Col 2,15).

Para melhor apanharmos o sentido deste mistério, devemos recordar muitas vezes esta verdade: Todos os justos, não só os que no mundo nasceram depois da vinda de Nosso Senhor, mas também os que hão de existir até a consumação dos séculos, conseguem salvar-se pelo benefício de sua Paixão.

Por este motivo, antes de sua morte e ressurreição, as portas do Céu jamais se abriram a nenhum dos homens. Quando passavam deste mundo, as almas dos justos eram levadas ao seio de Abraão, ou eram purificadas no fogo do purgatório, como ainda hoje se dá com todos aqueles que tenham de lavar alguma mancha, ou de solver alguma dívida.

Outra razão, afinal, por que Cristo Nosso Senhor desceu aos infernos, era de manifestar ali sua força e poder, como o fez no céu e na terra, para que de maneira absoluta "se curvasse a Seu santo nome todo joelho no céu, na terra e nos infernos" (Fil 2,10).

Nesta altura, quem deixaria, pois, de admirar a suprema bondade de Deus para com o gênero humano? Quem não se tomaria de espanto ao verificar que, por amor a nós, ela não só quis sofrer a morte crudelíssima, mas até descer nas maiores profundezas da terra, para dali arrancar, e introduzir na glória as almas que tanto amava?

(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - 1962 - Ed. Vozes)

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