preparação para a morte: A morte do Pecador

PONTO II
Não uma só, senão muitas serão as angústias que hão de afligir o pobre pecador moribundo. Ver-se-á atormentado pelos demônios, porque estes ter-ríveis inimigos empregam nesse transe todos os seus esforços para perder a alma que está prestes a sair desta vida. Sabem que lhes resta pouco tempo para apoderar-se dela e que, escapando-se agora, jamais será sua (Ap 12,12). Não estará ali apenas um só, mais muitos demônios hão de rodear o moribundo para o perder. Dirá um: “Nada temas, que te restabelecerás”. Outro exclamará: “Tu, que durante tantos anos foste surdo à voz de Deus, esperas agora que ele tenha misericórdia de ti?” “Como — intervém ou-tro — poderás reparar os danos que fizeste, restituir as reputações que prejudicaste?” Outro, enfim, dirá: “Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, sem contrição, sem propósito? Como podes agora renová-las?’ Por outro lado, o moribundo se verá ro-deado por suas culpas. Estes pecados, como outros tantos verdugos — disse São Bernardo, acercar-se-ão dele e lhe dirão: “Somos a tua obra, e não te dei-xaremos.
Acompanhar-te-emos à outra vida, e contigo nos apresentaremos ao eterno Juiz”. Quisera então o mo-ribundo desembaraçar-se de tais inimigos, mas para consegui-lo seria preciso detestá-los e converter-se de Deus de todo o coração. O espírito, porém, está coberto de trevas, e o coração endurecido. “O coração duro será oprimido de males no fim; e quem ama o perigo, nele perecerá” (Eclo 3,27).
Afirma São Bernardo que o coração, obstinado no mal durante a vida, se esforçará, no momento da morte, para sair do estado de condenação; mas não chegará a livrar-se dele, e, oprimido por sua própria malícia, terminará a sua vida no mesmo estado. Tendo amado o pecado, amava também o perigo da condenação. É por isso justamente que o Senhor permitirá que ele pereça nesse perigo, no qual quis viver até à morte. Santo Agostinho disse que aquele que não abandona o pecado antes que o pecado a-bandone a ele, dificilmente poderá na hora da morte detestá-lo como é devido, pois tudo o que fizer nessa emergência, o fará obrigadamente.
Quão infeliz é o pecador obstinado que resiste à voz divina! O ingrato, ao invés de se entregar e en-ternecer à voz de Deus, se endurece mais e mais, à semelhança da bigorna sob os golpes do martelo (Jó 41,15). Para seu justo castigo, achar-se-á neste es-tado, na hora da morte, às portas da eternidade. “O coração duro será oprimido de males no fim”. Por amor às criaturas — disse o Senhor — os pecadores me voltaram as costas. À hora da morte recorrerão a Deus, e Deus lhes dirá 20 “Agora recorreis a mim? Pedi socorro às criaturas, já que foram elas os vos-sos deuses” (Jr 2,27). Deste modo falar-lhe-á o Se-nhor, porque, mesmo que a Ele se dirijam, não será com verdadeira disposição de se converterem. Dizia

São Jerônimo que ele tinha por certo, pois a experi-ência lho manifestara, que não alcançaria bom fim aquele que até ao fim houvesse levado vida má.

AFETOS E SÚPLICAS
Socorrei-me e não me abandoneis, amado Sal-vador meu! Vejo minha alma ferida pelos pecados; as paixões me violentam, oprimem-me os maus hábitos. Prostro-me a vossos pés. Tende piedade de mim e livrai-me de tantos males. “Em vós, Senhor, esperei; não seja confundido eternamente” (Sl 30,2). Não permitais que se perca uma alma que em vós confia (Sl 73,19). Pesa-me de vos ter ofendido, ó infinita Bondade! Confesso que hei cometido muitas faltas, mas a todo custo quero emendar-me. Se não me aju-dardes, porém, com vossa graça, estarei perdido. Recebei, Senhor, este rebelde que tanto vos ultrajou. Refleti que vos custei o sangue e a vida. Pelos mere-cimentos de vossa paixão e morte, recebei-me em vossos braços e dai-me a santa perseverança.
Estava já perdido, e me chamastes. Já não quero resistir, e me consagro a vós. Prendei-me ao vosso amor, e não permitais que me perca, perdendo de novo vossa graça. Jesus meu, não o permitais! Não o permitais, ó Maria, Rainha de minha alma; enviai-me a morte, e ainda mil mortes, mas que não perca de novo a graça do vosso divino Filho!

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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