segunda-feira, 20 de junho de 2011

Preparação para a Morte: Tudo se acaba com a morte

Finis venit; venit finis.
O fim chega; chega o fim (Ez 7,6)

PONTO I

Os mundanos só consideram feliz a quem goza dos bens deste mundo: honras, prazeres e riquezas. Mas a morte acaba com toda esta ventura terrestre.
"Que é vossa vida? É um vapor que aparece por um momento" (Tg 4,15). Os vapores que a terra exa-la, quando sobem ao ar, sob o efeito dos raios sola-res oferecem, às vezes, aspecto vistoso; mas quanto tempo dura essa aparência brilhante? Ao sopro do menor vento, tudo desaparece. Aquele poderoso do mundo, hoje tão acatado, tão temido e quase adora-do, amanhã, quando estiver morto, será desprezado, olvidado e amaldiçoado. A morte obriga a deixar tudo. O irmão do grande servo de Deus Tomás de Kempis ufanava-se de ter construído casa magnífica. Um de seus amigos, porém, observou-lhe que notava um grave defeito.

— Qual? — perguntou ele.

— O defeito que encontro nela — respondeu-lhe 17

o amigo — é que mandaste fazer uma porta.

— Como? — retorquiu o dono da casa — a porta é um defeito? — Sim — acrescentou o outro — por-que virá o dia em que, por essa porta, deverás sair morto, deixando a casa e tudo o mais que te perten-ce.

A morte, enfim, despoja o homem de todos os bens deste mundo.

Que espetáculo ver arrancar este príncipe de seu próprio palácio para nunca mais entrar nele, e consi-derar que outros tomam posse de seus móveis, de seus tesouros e de todos os demais bens! Os servos deixam- no na sepultura coberto apenas com uma veste suficiente para cobrir-lhe as carnes; já não há quem os estime nem quem o adule; nem se levam em conta as ordens que deixou. Saladino, conquista-dor de muitos reinos da Ásia, ordenou, ao morrer, que, quando transportassem seu corpo à sepultura, um soldado precedesse o esquife, levando suspensa de uma lança a mortalha e gritasse: "Eis aqui tudo quanto Saladino leva para a sepultura!" Quando o cadáver de um príncipe desce à sepultura, desfazem-se suas carnes, e nos restos mortais não se conserva indício algum que os distinga dos outros.
"Contempla os sepulcros, — disse São Basílio — e não poderás distinguir quem foi o servo e quem o amo". Na pre-sença de Alexandre Magno, certo dia, Diógenes mos-trou-se mui absorvido em procurar alguma coisa en-tre um montão de ossos humanos. 18

— Que procuras aí? — perguntou Alexandre, com curiosidade.

— Procuro — respondeu Diógenes — o crânio do rei Filipe, vosso pai, e não o encontro. Mostrai-me, se o podeis encontrar.

Neste mundo todos os homens nascem em con-dições desiguais, mas a morte os iguala — disse Sê-neca. Horácio dizia também que a morte nivela os cetros e os cajados. Numa palavra, quando a morte chega,
finis venit, tudo se acaba e tudo se deixa; de todas as coisas deste mundo nenhuma levamos para a tumba.

AFETOS E SÚPLICAS

Senhor, já que me fazeis reconhecer que tudo quanto o mundo estima não passa de fumo e demên-cia, dai-me força para livrar-me dele antes que a mor-te me arrebate. Infeliz de mim, que tantas vezes, por míseros prazeres e bens terrenos, vos ofendi e perdi a vós que sois o Bem infinito! Ó meu Jesus, médico celestial, volvei os vossos olhos para minha pobre alma; vede as feridas que eu mesmo lhe abri com meus pecados, e tende piedade de mim. Mas, para me curar, quereis também que me arrependa das o-fensas que vos fiz. Já que me arrependo de coração, curai-me, agora que podeis fazê-lo (Sl 40,5). Esqueci-me de vós; mas vós não me esquecestes, e agora me dais a entender que até quereis olvidar minhas ofensas, se eu as detestar (Ez 18,21). 19

Sim, detesto e aborreço-as mais que todos os males. Esquecei, pois, meu Redentor, as amarguras que vos causei. Doravante, prefiro perder tudo, até a vida, a perder a vossa graça. De que me serviriam, sem ela, todos os bens do mundo? Dignai-vos ajudar-me, Senhor, já que conheceis minha fraqueza.

O inferno não deixará de tentar-me; prepara mil assaltos para me reduzir de novo à condição de seu escravo. Mas vós, meu Jesus, não me abandoneis! Quero ser escravo de vosso amor. Sois meu único Senhor, que me criastes, que me remistes e que me amastes sem limites. Sois o único que mereceis a-mor, e só a vós é que eu quero amar.

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

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